domingo, 28 de dezembro de 2008

Bússola


Vento vagante em meu peito imerso
soprando palavras sem rumo nem rima
num mar de poemas ainda disformes
decerto deserto de versos diversos,

Lúcidos.

Decerto bússola de agulhas incertas
Disturbando o nauta que, embora poeta,
explora inseguro seus versos-dilemas,
prendendo palavras que estavam libertas,
e livrando os sentidos de suas algemas

Ácidas.

Sopra, brisa pungente, minha vela reclusa!
E move esta nave donzela a epopéias bravias
para as águas gestantes de vãs poesias,
para os mares sedentos desta proa intrusa,

Límpidos.

Cruza percursos remotos privados de mapa
e brevemente (que és só fôlego e mocidade)
leva meu poema a mergulhar na saudade,
mas batiza-o somente na palavra que me escapa

Líquida.

Depois traze-o certeiro a esta mesma embarcação,
pois se a rosa-dos-rumos converteu-se na dos ventos,
um sopro que me venha há de mudar-se em alento
e transbordar de poesia o navegante coração

Ínfimo.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cafezal


Um cheiro vivo cafeeiro pela estrada
Entrando sacro pelo vidro do meu carro
Entrando intruso, meio que tirando sarro
Trazendo à tona aromas doutra temporada

Fragrância alheia aos que habitam as cidades,
Porém perfume a quem do mato se enamora.
Canção da terra incensando a santa aurora,
Louvor-viola arando o peito de saudades...

Reduzo a marcha, estaciono um momento.
Até me vejo bem piá sobre um cavalo,
voando altivo pelo campo tal qual vento.

E ainda escuto a voz materna assim chamá-lo:
— Vorta depressa, pelo Santo Sacramento!
Bendito o cheiro da infância que eu inalo!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Pietà


Matrona dos lazarentos
dos esmagados
Donzela dos remelentos
dos azarados
Guria dos indigentes
dos derrotados
Senhora dos ausentes
dos torturados
Maria dos infames
dos rebelados
Sua graça se derrame
nos enjeitados
Tenha dó dos calejados
e os proteja
Alivie os magoados
Assim seja!



sábado, 1 de novembro de 2008

Côncavo


Tem quem viva mesmo morto
Há porém quem venha lúgubre

Tem quem ande mesmo torto
Há também quem cresça ínfimo

Pois se há quem vença sem conforto
Também tem quem nasça póstumo

E embora encontrem mesmo porto
quase não há quem mude o hábito

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Uma xícara premiada


Estou feliz. Comecei a escrever há pouco menos de quatro meses e estou colhendo agora os primeiros frutos. O poema "Xícara", simples e breve como um cafezinho, ficou em 1º lugar no Concurso Nacional de Poesia Caleidoscópio 2008, concorrendo com quase 200 outras poesias válidas inscritas.



Resultado completo

1º Lugar - Poesia: Xícara
Fábio Alexandro Sexugi
Peabiru - PR

2º Lugar - Poesia: O Pássaro Azul
João Elias Antunes de Oliveira
Brazlândia - DF

3º Lugar - Poesia: Poeminha Para Quem Tem Medo de Amar
Andréa Cristina Francisco
Mogi das Cruzes - SP

4º Lugar - Poesia: Natureza Morta
Agnaldo Pereira
Ipatinga - MG

5º Lugar - Poesia: Delírio
Tatiana Alves Soares Caldas
Rio de Janeiro - RJ

6º Lugar - Poesia: Belas Artes
Fátima Soares Rodrigues
Belo Horizonte - MG

7º Lugar - Poesia: A Saudade e o Sonho
Henriette Effenberger
Bragança Paulista - SP

8º Lugar - Poesia: Construção
Luiz Otávio Moreira Oliani
Rio de Janeiro - RJ

9º Lugar - Poesia: O Tempo
Augusto Sérgio Bastos
Rio de Janeiro - RJ

10º Lugar - Poesia: Entrelinhas
Carla Soares Corrêa
Porto Alegre - RS

Membros da comissão de avaliação

Profª Ms. Solange Moreira
Professora Universitária e Crítica Literária

Rosangela Dias Motta
Poetisa e Comunicadora Social

Davi Mourão Motta Drummond
Poeta e Diretor do Projeto Poesia Pública


Um cafezinho pra comemorar!

sábado, 25 de outubro de 2008

A Revolta dos Fantoches


Negligência sangüenta
noutro mundo paralelo,
um fio se arrebenta
E me rebelo

Um cenário bonito
espetáculo desonesto.
Mesmo aplaudido,
Protesto

Ainda amarrado, suspenso,
ao menos por dentro me solto
ao menos assim me pertenço
Me revolto

O manipulador manipula dores
em movimento modesto
E sem muitos rumores
Contesto

Mas até quem comanda
volta e meia cai no sono
E o nó então se abranda
E revoluciono

A pena porém de quem se mete
a desmerecer tal "obséquio"
é voltar pó ao baú das marionetes
é voltar só à mesma caixa de presépio

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Cesta Básica


Os donos da circunstância
fazem do povo
Mártir da própria ignorância
[de novo!]

Tempos Birutas


Ontem, enquanto apagava uns malditos spams na minha caixa de entrada, vi que tinha recebido um e-mail do Arleto Rocha – grande poeta peabiruense – falando sobre meu blog. Depois da devida permissão, publico o seu texto, honrado e agradecido. Ei-lo:

Nessas bobeiras que a gente tem de ficar fazendo nada a frente de uma Internet que supostamente nos propicia fazer tudo (que embuste), ao Google na procura do não sei o que:

- “Peabiru”

Vinte e tantas paginas. Fiquei na primeira.

Acrescentar outra palavra, sair da rotina.

Na digitação de dois dedos (Professor Expedito que não veja isso nas aulas de datilografia) um sufixo involuntário:

- “Peabiruta”.

Primeira página. Nada.

Segunda: teu blog.

Muito legal a estética, longe da formalidade dos que vejo por aí. Nota 9,9. (Explico: pois como disse uma professora da faculdade “10 só para Deus”. Enchi a prova dela com citações bíblicas relacionadas com a disciplina agrária de seu magistério. Deu-me 10, às escondidas, chamou-me de anjo e pediu para nunca mais eu fazer isso: ciência e religião, um perigo). Às escondidas, 10 pelo teu blog.

Chamou-me a atenção sua crônica “Anel de Tucum”. Leitura fluente. Eu que dialogo com os cães (os meus e os da rua) e samambaias vi-me dirigindo o neo-realismo da cena. O Cão e o cara sob a noite.

Predestina-me também este teu talento de ouvir estranhos. Outro dia, sentado ao balcão de um boteco da rodoviária de Curitiba, esperando o ônibus as 13, sendo ainda 10, o sujeito me disse:

-Bebendo cerveja nesse frio!

Olhei, o cara sorriu, o outro, junto, em silêncio. Ventríloquo, falava por ele e por todos. Desandou a dizer que a mulher do amigo, esse aí em silêncio, tinha o largado, e agora voltava para uma reconciliação, lá em Faxinal, depois de Ortigueira, antes de Apucarana.

Da primeira até a segunda cerveja, a historia do amigo, na terceira a dele, até pedir minha opinião:

-Será que ela o aceita de volta?

O ônibus era as 11. Foi. Feliz por eu dizer que sim. Pagou-me as três cervejas, mesmo dizendo que a prefeitura de minha cidade arcaria com as Kaisers bebidas.
Pela porta, bolsa nas costas, o falante para o amigo feliz e sempre quieto:

-Num disse que você vai ter ela de volta.

Na cidade da Lapa, em um evento de premiação literária, tarde da noite no vento sulista descobri que não existia hotel aberto àquela hora. Minha bagagem dormindo no guarda volume da rodoviária fechada e eu pelo lado de fora com dez exemplares da antologia publicada. Deitei-me no banco de madeira dos taxistas:

-Vende livro?

Para evitar dizer que eu escrevia (um crime nesses dias de espíritos embrutecidos) disse que sim:

-Sim.

Encolhi os pés, ainda com a cabeça nos livros, feitos travesseiros. Depois me levantei de vez. Outro taxista sentou-se ao lado.

A vida inteira dos dois, uma tia-avó em Nova Cantu e a escalação completa do Coritiba e do Atlético.

-Torce pro Coxa ou pro Atlético?

-Grêmio de Maringá.

-Esses livros que vende é de quê?

-Poesia.

-Leia uma.

Escolhi a minha, e li sem dizer que era minha. Fizeram cara de desaprovação e de quem não entendeu nada. Voltaram a Tia-avó em Nova Cantu e ao futebol curitibano.
Café, pão e os livros.

Conversas estranhas com conhecidos também não é novidade, talvez, como você disse, por essa nossa vocação de ouvidos mais que boca:

-Faço tudo e nada está bem, num dá mais pra continuar assim, o jeito é terminar mesmo...Nunca, nunca mais quero vê-la.

Dois dias depois, juntos.

Mas essa coisa alem do entendimento pode ser fruto dos dias. Culpa nossa, pois pela tecnologia conversamos com gente que nunca conhecemos, pelos orkuts e MSNs da vida, sem falar no celular que virou extensão da mão humana, um órgão do corpo, muito embora crio um espanto a todos quando digo que não tenho e não gosto. Um apêndice sem função para mim.

Teclando o Google, para bisbilhotar todos e ninguém.

Tempos birutas.

Peabiruta.

[Arleto Rocha]

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

sábado, 13 de setembro de 2008

Da sacada


Quero escrever a palavra mais linda
e deixar pelos muros versos suaves
Quero entrar na casa da poesia
e da janela translúcida, intruso,
olhar o mundo além dos horrores.
Quero ver a vida, ainda intruso,
além da fachada, cinzenta, fechada.
Quero, da mesma janela poética,
coser saberes, gozar sabores,
olhar o mundo além das dores,
e escrevê-lo mais bonito,
embora limitado,
como senhor sem vassalo,
como rei sem castelo,
cavaleiro sem cavalo,
escrevê-lo mais belo,
já que só a beleza haverá de salvá-lo.


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Peabiru


Torre altiva acenando no horizonte
com sua cruz
como que tirando sarro
Minha cidade sorri atrás do monte
à meia-luz
bem à frente do meu carro

Reduzo a marcha
Contemplo o brilho
Respiro fundo

Um vento cálido ali me espera
Soprando meu peito em brasa
E me dizendo em voz sincera:
— Estás em casa! Estás em casa!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Alvorada em minha Pátria


No vasto solo do meu espírito poeta
Onde eu cultivo tantos sonhos e promessas
Ressoa o eco da canção da minha terra
Feito cantiga aveludada que dos ouvidos se aproxima
Feito poema à singeleza que transcende qualquer rima
Poema insigne que venera uma beleza sempre eterna
Canção amiga cantada em verso, musical língua materna
Ressoa em súplica que sobe em paz na alvorada
E se propaga aqui por dentro construindo uma morada:

Deus te salve, ó minha Pátria, meu quintal amplificado!
Que te acolha vaidoso como o Cristo em Corcovado
Que te benza sorridente aspergindo-te Iguaçu
Que percorra os teus caminhos, entre os quais, Peabiru
Deus te beije, jardim jovem, o horizonte majestoso,
E sopre um hálito de vida na bandeira que sustentas
E outro hálito de paz em quem hasteia-te orgulhoso
Que teu eco esteja sempre aos meus ouvidos qual canção
E esperança seja o sonho que se encontre em minha mão
Pois o som do teu hino pelas ruas do desterro
Estremece até a alma neste peito brasileiro

domingo, 31 de agosto de 2008

Visitantes recentes


O que querem insistentes
e que buscam [me perscrute]
os "visitantes recentes"
que vasculham meu Orkut?

E por que tal descaso
em me deixar só pegadas?
Se me visitam por nada,
o fazem só por acaso?

Quem serão esses vultos
que me deixam inquieto?
Serão amigos secretos
ou inimigos ocultos?

sábado, 30 de agosto de 2008

Jovita Xavier Padilha


Tia Jovita
mulher gigantesca
versão gauchesca
de Maria Bonita

Jovita Padilha
de olhar farroupilha
de bota e bombacha
fingindo ser macha
chapéu e chicote
sem luxo ou fricote

Tia Jovita
pioneira tão brava
feita em Guarapuava
onde a saudade palpita

Jovita Xavier
esculpida mulher
em madeira de pinho
pelo seu Sertãozinho
modelada senhora
no inverno de outrora
pelo findo presente
que faz tão-somente
que a vida da gente
vire foto amassada
em outra temporada
[que disparate!]

Saboriemos o mate,
enquanto está quente
antes que o poente
nossa cor arrebate

Aproveitemos o mate,
que no fim, veja só,
tudo volta a ser pó.



quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Miopia




Serão dez ou serão onze
os seus óculos de bronze?
Por favor ou por astúcia,
não reponham tal minúcia
na estátua que verseja.
Não permitam que ela veja
que a maldade que profana
ultrapassou Copacabana.


terça-feira, 26 de agosto de 2008

Antagonista


Amplitude e exigüidade
Começo e extremidade
Injustiça e eqüidade
Egoísmo e caridade
Brisa e tempestade
Soberba e humildade
Repulsa e saudade
Opostos de verdade?

Frieza e emoção
Conserva e supressão
Parcimônia e profusão
Meiguice e sequidão
Prazer e aflição
Descuido e precaução
Demora e lentidão
Fazem mesmo oposição?

Tristeza e alegria
Marasmo e energia
Franqueza e hipocrisia
Sossego e euforia
Realidade e fantasia
Gentileza e grosseria
Barateza e carestia
Representam ironia?

Palavras que equilibro
E não faço acepção:
São antônimas no livro,
Mas iguais no coração.



Crise


Já reparei que quando fico mal-humorado não me vem poema nenhum. Nenhunzinho. Não vem rima nem nada.

Ou será que é a poesia que faz birra de vez em quando? Talvez seja isso. O fato é que hoje vou dormir sem verso.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Cerejas

Cerejas enchem os olhos, não a barriga. Não a minha.

Padre Jerônimo não é o único que não entende "essas coisas brasileiras"...

domingo, 24 de agosto de 2008

13


Guerra troiana há 13 séculos de Cristo,
amor de Páris por Helena jamais visto
que se repete ao século XIII, temporada
de amor anônimo em pleno viço das Cruzadas.
Eram treze à távola d'último jantar
São trezes rosas à Rainha do Mar
Treze é primo, é seqüência Fibonacci,
Mistério ágata de treze vívidos quilates.
A 13 de maio na Cova da Iria,
Uns piás enxergaram a Virgem Maria.
Noutro 13 doutro maio, por ventura,
se pretendeu amenizar a escravatura.
Treze romances de Nadine Gordimer
Treze epístolas de São Paulo em turnê
"Até quando, ó Senhor, te esquecerás?"
Pergunta o Salmo [que é 13, aliás]
Treze virgens no paraíso de Allah
esperam o bravo que morrer sem reclamar.
Treze ramais cortando o velho Peabiru
Treze pátrias pela América do Sul
Die Dreizehnlinden apelidada Treze Tílias,
de onze estátuas e outras duas maravilhas.
Treze profetas escritores tem a Bíblia
Treze zepelins dispararam contra a Líbia
Aos 13 anos se descobre a adolescência,
e com mais 13 é que se paira a sapiência.
E até a bola, mesmo que se aburguese,
também depende um tal Clube dos 13.
"Treze Homens e um Segredo" no cimena
"Jim Knopf e os 13 Piratas" sem problema
Verei depois da 13ª pétala da idade,
se o bem-me-quer que diz a flor será verdade.
Só saberei se a flor não for tão insensata,
quando vier o novo mundo da 13ª surata,
vencendo assim a fera estranha como eclipse
que fala o capítulo 13 de Apocalipse.

Poema para a Poetisa


Flor do ipê do pé de Assaí posto
Epopéia nos idos raios de agosto
Ipê mesmo, mão de Deus, dedicatória
caindo angélico nos versos da história

Aproveitar a poesia pra proveta
Chapar de chá até rachar as borboletas
Salgar as rosas que estejam dessalgadas
E adoçar as solitárias calcinadas
E, com lirismo [embora seja um certo fardo],
fazer sorrir o mais revolto Leonardo

A chuva última haverá de ser primeira
que da Medusa apaga o fogo em cabeleira
e molha fértil e de forma tão precisa
a inspiração brotando à mão da poetisa
em Curitiba, pelos parques, pelas ruas
em Peabiru, de pó rubi, de estrelas cruas
para regar, banhar de luz a poesia
eternizar o que compor Bárbara Lia

sábado, 23 de agosto de 2008

Poema do Amor Imperativo


Toca-me!
Um toque sutil que for, um encontro de asas de beija-flor
Um sussurro leve ao ouvido, calafrio abributo atrevido
Um beijo-despertar dum sonho que instiga a sonhar.

Venha!
Neblina amiga das noites de sábado,
é teu beijo banhando meus lábios.
Como brisa que arranca dos montes a aurora,
tal e qual levas meu tudo embora.

Acorda-me!
Que já és a minha manhã, filha da noite, da madrugada irmã
És sonho, és desejo de abraço e de beijo
Que espero como engano sincero

Sinta-me!
Num misto de sentimento, meu coração ciumento.
Viver tua essência e o que eu não vejo: eis meu desejo
Mas os desejos de vez em quando tormam o fogo mais brando
E a brandura nos faz
cúmplices do jamais

Suba!
Sobre as asas da aventura
Onde os sonhos se tornam realidade
Onde não poderemos voar de verdade

Veja!
Confio a minha alma ao teu olhar sábio
A fim de que haja outro eu, um outro Fábio

Coragem!
Presenteia-me o sonho do mundo onde resides
E acompanha-me pela mão nos meus átimos tristes
Entre universos tão distantes
Entre dois mundos tão vizinhos
Aí está meu coração

Toma-o!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Latim


Quem vai a Roma
Não vaia Roma
[Nem seu idioma]



Paranaguá


O vento é um poeta que vagueia
pela praia, vagabundo, em ziguezague
Escreve os seus versos sobre a areia
Pede às ondas invejosas que os apague

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Amar, Verbo Transitivo


Nasço amores
Chego amassos
Moro abraços
Chovo flores


Amanheço idades
Anoiteço brigas
Sorrio cantigas
Choro saudades


Converso festas
Fracasso juras
Morro loucuras
Viajo promessas


"Amo". E sem objeto [direto / indireto]?
"Amo". E sem complemento? Que tom mais cinzento!
"Amo". Sem-eira-nem-beira? Que besteira!
"Amo". E só? Tenha dó!


Que me perdoe Mário de Andrade
e Carlos Drummond me permita,
mas, se o amor não transita,
não é amor de verdade:
É parasita!


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sopro


Admiro a vaidade do vento
escondida, fingindo ser paz
Ela veste de flor o cimento
e penteia saudosa os trigais
Ela sopra um doce tormento
nas marolas que beijam o cais
Ela esconde no seu movimento
armadilha aos mais sábios mortais

domingo, 17 de agosto de 2008

Peabiruta


Eu peregrino
dia por dia,
longa romaria

Eu peregrino
no pó, no espinho
durante o caminho

Eu peregrino
aspirando outros ares
da terra-sem-males

Eu peregrino

piso a terra laranja
que meu pé desarranja

Eu peregrino
e se às vezes me exalto
não prefiro o asfalto

Eu peregrino
em rastros inteiros
de outros romeiros

Eu peregrino
Faço irmão o destino
e irmãs as estrelas
e mesmo sem vê-las
Peregrino



Foto da Peregrinação pelo Caminho do Peabiru, promovida pelo NECAPECAM [Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na Região de Campo Mourão-PR], no trecho entre Engenheiro Beltrão, Terra Boa, Peabiru e Araruna. Setenta quilômetros a pé e a pó.

sábado, 16 de agosto de 2008

Eclipse


Somos, a contragosto
uma antítese, de fato
E digo no teu rosto:
— Teu certo é errado!


Meu exato é incerto
sou humano
Mas, às vezes, acerto
por engano


Nós somos do contra
Minha vida é distante
E a tua, uma elipse
Mas, quem sabe um instante
A gente se encontra
E... eclipse!


Carneiro ao Vinho


Terceiro domingo de agosto
Festa típica no Sul
Culinária que tem gosto
do meu chão, Peabiru

Gosto rude do Pinheiro
imponente lá na praça
da Bica do Saltinho

da Maria-Fumaça
indiscreta no Trevinho

Da Mata do Eurico
ninho dos colibris
da trilha do índio
da majestosa Matriz

Tem gosto de procissão
pelas noites de Quaresma
Sabor bom de São João
da fogueira grande em festa
Tem jeito de pioneiro
em 14 de Dezembro
tem um gosto brasileiro
e do resto que não lembro

Carne de ovelha
já temperada
Tomate e cebola
bem fatiada
Alho e salsinha
[pra dar um cheiro]
Se quiser, cebolinha
[ou outro tempero]
Batata picada
em cubos grosseiros
Óleo de oliva
[toque especial]
pimenta-do-reino
colheres de sal
Bem misturado
com muito carinho
E tudo regado
a dois litros vinho

Tampada a panela
é tacar fogo nela
depois de uma hora e pouca
e muita água na boca
e é só comê-lo então
com arroz e com pirão

Carneiro ao molho de vinho
Igual iguaria não há
Sabor delicado, aroma divino
Melhor gororoba do Paraná


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Estiagem


O sol volta radiante
Leva a chuva lacrimosa
Deixa tudo como antes

Chuva


Nuvem densa no céu
A água que invade
são gotas de saudade

Ausência


Internet, celular, saudade
Ônibus, rua, passos
Mãos, beijos, abraços
Refri, olhar, vontade


Harmonia de covardia e bravura
Percorre meu teimoso pensamento
Que pronto me diz por alento:
Nossa história não foi só aventura


Em cada giro lento do ponteiro te penso
E desejo ter-te no aconchego do meu braço
Ouvir no teu seio o pulsar em descompasso
Sentir-te o cheiro qual aroma do incenso


Papel, lápis, movimento
Computador, delete
Café, música, tapete
Ausência, sentimento


Espera, espera, espera...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Felicidade


Sinto-te perto
candura
decerto

Sinto-te dentro
nua e crua
alento

Sinto-te quente
fervura
crescente

Sinto-te fria
de repente
ousadia

Sinto-te poema
eloqüente
[com trema!]

Sinto-te peregrina
urgente
adrenalina


Tempestade gaúcha


Gotas errantes
imitam vanera
Caem dançantes
sem eira nem beira


Um vento criança
recorda sanfona
Fissura de dança
me vem logo à tona




terça-feira, 12 de agosto de 2008

Rua dos Bobos, № 0


Morreu uma professora que educou gerações de brasileiros. Fez o melhor que pôde a vida toda, apesar da remuneração miserável que recebia. Morreu e pouca gente ficou sabendo. Quase ninguém, nem mesmo aqueles que agora podem ler estas linhas só porque ela, pacientemente, os ensinou a ler.

Mas, assim como ela, todos os dias, muita gente boa vai embora desapercebida: o bombeiro que morreu queimado cujo salário mal dava pra pagar as despesas de casa; o jovem que fazia trabalhos voluntários na periferia; a freira que deixou o conforto da pátria materna e foi assassinada por defender a causa dos pobres; os torturados desaparecidos durante a ditadura militar... Gente de todos os tipos, de idades diversas, com sotaques e ideologias diferentes, que, quando vivos, não receberam nada além de portas na cara, risadinhas e comentários irônicos, indiferença, descrédito e ingratidão, muita ingratidão... quem sabe até ganharam meia-dúzia de elogios [clichês] fingidos e forçados, falas prontas repetidas trocentas vezes em cenas de novelas. E, depois de mortos, homenagens. Vãs. Vazias. Artificiais, com jeito de plástico made in China. E é sobre isso exatamente que tenho pensado nesses dias.

Celebram-se cultos e missas solenes com gente importante [com anúncios na Tribuna! Uia!] para tentar ressarcir o fulano que em vida foi ignorado por completo. E vejam só: mesmo assim, ele ganhará bustos na praça, onde o tempo, os pombos e os pichadores se encarregarão de manchar, pintando, dessa forma, o mais autêntico retrato do que receberam dos bão-da-boca em vida. Os donos do jogo darão o nome do indivíduo a ruas, avenidas, ginásios de esporte, escolas, asilos, blocos universitários, centros culturais, museus, estádios e o caramba. Inaugurarão viadutos e lhes emprestarão seu nome. Criarão leis e outra vez o nome do desprezado estará lá, bem no título, bem bonitinho. E pronto! Linda homenagem! Está tudo devidamente indenizado, como manda o figurino. É como se num passe de mágica [ou de macumba], toda a falta de reconhecimento, todo o desrespeito que tais idealistas receberam durante a vida e levaram magoados consigo para o túmulo fossem apagados. Como se essa babação-de-ovo póstuma tivesse o poder de jogar pra debaixo do tapete – já grosso de pó velho – as frustrações impostas. Sim-salabim!

Só se esquecem, porém, que rituais e homenagens póstumas não apagam traições. Estátuas não compensam torturas. Letreiros luminosos em prédios edificados com grana pública não ofuscam isolamentos cruéis. Jardins no centro não limpam cusparadas. Isso não basta.

Não basta dar o nome de uma professora a uma escola pública. É pouco demais! É necessário brigar para que a escola pública seja promovida de verdade e os educadores, valorizados. Eis a homenagem verdadeira!

Construir um belo obelisco a pacifistas regionais não basta. É mísero! Insensatez! Para homenageá-los, seria preciso construir a paz e a justiça pela qual lutaram, e não monumentos apenas.

Não basta pregar uma placa para um militante idealista numa salinha. Isso é nada! Importa tirar do túmulo seus ideais, levar suas idéias adiante.

Que é dar a um conjunto habitacional o nome de um político honesto? [Sim, eles existem.] Nada! O que vale mesmo é vestir a camisa da honestidade e bater o pé quando esta faltar.

Não basta beatificar um mártir. É muito pouco. É preciso imitar-lhe a coragem, a perseverança e ajudar outros corajosos e perseverantes em suas lutas, para que não precisem conhecer o batismo de sangue.

Os bão-da-boca sabem disso, minha gente. Ah, se sabem! Confiam devotamente, de olhos fechados, na passividade, na imbecilidade das massas; porque sua consciência, sua criticidade, eles soterraram no concreto do obelisco.

Os bão-da-boca, à luz de flash e sob o aplauso alienado de uma platéia simples e comovida, inauguram monumentos póstumos e enterram o "homenageado" de vez. Ele e as idéias pelas quais lutava, pelas quais deu a própria vida.

Pro diabo com seus bustos! Fodam-se suas homenagens fingidas! Que mané nome de museu! Que mané Tribuna! Enfiem no cu seus obeliscos, hipócritas do caralho!

Plaquinhas de bronze? Estátuas? Nomes de avenida? Tudo isso vale muito pouco, meu caro.

Muito pouco mesmo.

E até a cruz, cujo simbolismo amo e defendo, é muito pouca coisa. Quero menos cruzes e mais Cirineus.



Tributo aos amigos


Meu coraçao peabiruta
Gratidão fertiliza
E obrigado tributa

Aos meus caros amigos
Que de forma precisa
Me abrandam perigos

E dividem comigo:
Piadas
Brinquedos
Problemas
Torpedos
Cachaça
Segredos
Suas preces
Seus medos

Aos amigos de berço
Aos amigos de acaso
Aos amigos de terço
Aos amigos de passo

Aos amigos à vista
Aos amigos a prazo
Aos amigos de trampo
Aos amigos de aço

Aos amigos grandes
Aos amigos pequenos
Aos amigos sinceros
E aos mais ou menos

E a quem do meu lado
Peregrina essa estrada
Um abraço apertado!
Uma Skol bem gelada!


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Rivestita di Sole


Madonnina, mi dia
Le prego
un tempo ancora
per sentire l'allegria
spiego
che in me si affiora


Lei, Mamma Maria
che dal alto collabora
da sempre fino ad ora
Mi regali pazzia
per diventarmi aurora


Ma se Le sembr' affronto
Le chie'dunque per corolle
che mi faccia almeno sole
e mi divento un bel tramonto


E pronto!



domingo, 10 de agosto de 2008

Chuva dominical


Nos domingos mais tristonhos
turbulentos de quietude
É a densidade dos meus sonhos
que me devolve a juventude.

Pai


De você, amo o silêncio
e não as palavras
Prefiro as não ditas, as caladas
omissas


De você, amo a prudência
dizer ponderado, vizinha distância
concisa


De você, amo o terço
e os joelhos constantes, dobrados
devotos


De você, amo os calos
nas mãos operárias, pedreiras
dignas


Amo-lhe ainda a instrução imperfeita
as letras trêmulas, vacilantes
breves


De você, amo o que os outros não amam
e tudo que não sei expressar além
do empecilho.
A rudeza que estes versos reclamam
dizem apenas que quero-lhe bem.
Teu filho.

Torre de Babel


Habitamos uma só tribo,
que circunda este planeta.
A fumaça dant'escribo
é que publica igual gazeta.


Construímos um edifício
em plena mata selvagem
e fazemos da linguagem
arco que dispara míssil


Nossa língua não se entende
nem entre os conterrâneos.
Pois o que há nos nossos crânios
já não é mais transparente.


E por mais que nós falemos
de modo igual este idioma,
nos fechamos em redoma
bem maior do que já temos.


Sino apaixonado


No esplendor da matriz
santuário divino
a cantiga do sino
a cidade bendiz


Sino, feito viola,
lá no alto da igreja,
em canção sertaneja,
minha terra namora.

Canta, bronze amigo,
tua paixão comovente,
que o peito da gente
te dá paga e abrigo.

Canta teu suave libido
pois um dia quem sabe
antes que a missa se acabe
sejas correspondido.






sábado, 9 de agosto de 2008

Algea, eleison!


Que é a dor,
senão fria corrente
que une os mortais?

Que é o amor,
senão medo pungente
de murmurar ais?

É a dor quem desenha
os santos e os pecadores.
É ela a mesma senha
nas prisões e nos andores.

Pois santidade e imperfeição
têm nas veias mesmo sangue:
São filhas da aflição,
paridas num mesmo tanque
cujo nome é coração.

Cheque pré-datado

Aproveito
Escrevo meu caminho à caneta
O que está feito, está feito
Não tem jeito

Uso lápis de vez em quando
Mas não que o medo me retenha
Se há perigo, pois que venha!
Que continuo rabiscando

Mas se eu rabisco em grafite
não uso nunca borracha
que zomba, esculacha
sem dó nem limite.

Assim faço meu destino
Sem rasuras de errorex
Pois a rubrica dos meus cheques
Sou eu mesmo que assino.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Papel de parede


Saudade feroz
de quando as paredes ouviam,
condenavam, proibiam
a nossa voz


Errávamos menos
quando as paredes tinham ouvidos.
Pois precavidos,
éramos plenos.


Hoje os ouvidos têm paredes.
Não é esquisito?
Pois nem meu grito
tu já não sentes.


Reclamo em vão...
Mas se há paredes
Pintemo-las verdes
pra ocultar solidão

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Parafina


De vez em quando
minha fé resmunga
reclamando

Inconstância súbita
me questiona
me põe em dúvida
me indaga

Mas meu pavio não se apaga
segue aceso
e embora ileso
em chaga

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

3 x 1



Não faço
do fracasso
placar final.

Nem a pau!

Converto derrota
em pontapé inicial.

Château Lafite Rothschild no elevador


Se o que se fala dos extintos
fosse dito ainda em vida
com mesma lábia devida
e semelhante instinto
quem sabe nem morressem
os que cruzam labirintos


Pois palavra cura
Palavra é ânimo
Potência pura
Poder anônimo


E a vida é festa
completa e única
somos convivas
com mesma túnica


Somos garçons em black tie
com palavras na bandeja
Não servimos verbo que retrai
jamais, a quem quer que seja


É tão besta brindar
com palavra azeda
palavinagres
indigestas
e guardar os vinhos
que são milagres
pra outras festas


Não deixe na estante
taças donzelas
A hora de beber é agora
sem cautelas
sirva o melhor espumante
porque num instante
tudo evapora


Brindemos já, meu amor
que a vida é festa no elevador
que logo chega ao térreo
Não leve tão a sério
o mistério e o que for


Garçom, um copo de licor,
por favor,
de palavras, depressa!
É o que mais me interessa.





Rochas


O receio do novo
distancia estrelas
impede-nos vê-las


O medo da luz
condensa, reduz
homens em pedras


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Solzhenitsyn

Os telejornais já devem ter falado tudo sobre a morte do escritor russo Alexander Solzhenitsyn, Nobel de Literatura em 1970, ferrenho defensor da liberdade pessoal de expressão em oposição às doutrinas ideológicas totalitárias que fodem a vida e a história.

Um breve Поезия para ele.






Quem faz da caneta
espada contra o mal
pela paz
se faz
lagarta
Descarta
o casulo
escuro
ressurge borboleta

Cachecol


Chorei teu gelo
sem derretê-lo.
É tempo de soluçar geadas...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Anel de tucum

Como são as coisas, não é? Pois ontem de manhã, depois dum poema, tinha começado uma crônica pondo em cheque o uso pessoal de símbolos religiosos e ideológicos: crucifixos, fitinhas, adesivos, broches partidários e, especificamente, o anel de tucum e porque eu deixei de usar esse pequeno elo escuro feito da casca de um coquinho que liga ideologicamente seu usuário ao sofrimento do povo latino-americano.

Comecei argumentando do ponto de vista prático, numa introdução curta e irônica, sobre a fragilidade de um artefato de coco que quebra com facilidade. Enquanto eu evoluía arrogante e filosoficamente para o seguinte parágrafo, em que tratava de questionar a simbologia que o uso do anel encerra principalmente com relação à opção preferencial pelos pobres proposta aos católicos nas últimas décadas e que o termo "preferencial" não pode ser entendido como "exclusiva", minha irmã me telefonou. Ser interrompido no meio duma composição é ótimo! Ela queria que eu a levasse a Campo Mourão, numa ponta de estoque. Como já tinha perdido o fio da meada mesmo, aceitei.

Consumista que sou, comprei bastante. Mais até que minha irmã e minha mãe juntas, que perdem horas indecisas sobre o que e onde comprar. Sou prático: digo logo o que quero e o limite de preço aos vendedores e pronto. Não tenho muita paciência pra ficar escolhendo cores, formas e o diabo. E ao passo que minha irmã hesitava na trocentésima loja e minha mãe vagava noutra, resolvi respirar, esperar, conformado, do lado de fora, sentado no meio-fio.

Enquanto saboreava um quebra-queixo, um hippie, sentado ali perto, me ofereceu uns colares que estava vendendo, desses com sementes. E começou a puxar papo.

Agora, um desvio de assunto longo e meio no sense: sou recordista em conversas casuais com gente esquisita: semana passada, esperando ônibus na rodoviária de Peabiru [que está em reformas] fui parar exatamente no meio de um diálogo hilário entre um grupo de paraguaias e um bêbado [bebaço mesmo] que tentava entrevistar as moças pensando que fossem índias. Como não agüentei e tive um ataque de gargalhadas [também sou recordista em gargalhadas] o homem, bem pra lá de Bagdá, achou que meu riso fosse um aval pra que viesse confidenciar-me a sua vida [brava!]. E eu ouvi tudinho.

Numa outra ocasião, olhando a paisagem amarelada de Minas pela janela do ônibus que me levava São João Del Rey, percebi que um farelo branco sujava meu braço: a janela de trás, aberta, soprava a cocaína que um cara – de no máximo 20 anos – consumia sem cerimônias na poltrona imediatamente atrás da minha. Transtornado pelo efeito da droga, pediu para que eu não o censurasse e começou a contar suas desventuras amorosas [disse que a namorada tinha morrido naquele mesmo dia vítima de leucemia] e frustrações profissionais. Tentei dar uns conselhos [inúteis], mas ouvi mais e falei menos. As pessoas querem ser ouvidas, não ensinadas.

Ainda nas Gerais, e mesmo cansado, fui conhecer a estação ferroviária à noitinha: outra conversa inusitada. Um cachorro começou a me seguir, como se já me conhecesse. Entre um monte de gente que olhava a decoração de Natal, o bendito do vira-lata teimou me conhecia. Começamos, então, um monólogo. Só que quem falava era o cachorro. Sim. Falava com o olhar. Sabe aquele olhar de quem quer dizer alguma coisa? Pois eu jurava que esse cachorro queria me falar alguma coisa. O quê exatamente, não sei. Mas dei-lhe atenção. Quem sabe tenha sido efeito indireto da janela aberta do ônibus...

Situação semelhante vivi no Rio, em Copacabana. Sentei-me ao lado da estátua de Drummond e tivemos altos papos. Quero dizer, outro monólogo: o da estátua. Se bobear, devo ter escutado até A morte do leiteiro, meu poema preferido do poeta itabirano. E, na mesma data, à noite, olhando o balanço noturno das ondas, outro papo demorado: uma prostituta [não tão jovem], cansada de chamar a atenção dos alemães que passavam pela orla, sentou-se perto de mim. Ela virada para a rua, eu para o mar. Começou a falar sozinha, xingando os europeus pelo desprezo. Começou reclamando baixinho da vida, e foi aumentando o tom na medida em que percebia que não falava sozinha. Falou da humilhação que tinha que submeter para sustentar os três filhos, da casa de família onde trabalhava durante o dia e até, veja só, da morte de uma tartaruga de estimação. E eu ouvi tudo. Uma meia-hora depois uma senhora negra, com um ar alegre, toda de branco, passou por onde eu estava sentado, ainda perto do Drummond, e foi pra pertinho do mar. Depois de jogar um ramalhete de rosas pra Iemanjá e de balbuciar uma oração, voltou, sentou-se ao meu lado e começou a contar que tinha ido à praia agradecer à Rainha do Mar porque o marido voltara pra casa depois de três anos sem dar notícia. Achei aquilo tudo muito bonito. E fiquei emocionado. Ouvi e calei.

Fechando o parêntese e voltando ao papo com o hippie vendedor de colares, que também falou da própria vida, vida errante e litorânea. Depois de comprar dois colares com contas bem exageradas [que mais parecem burquinhas], continuei o papo por mais uns 15 minutos [e minha irmã ainda indecisa sobre o que comprar, perdida no meio dum mundaréu de gente]. Quando me levantei pra sair, o cara, em agradecimento pelo papo e pela compra, me ofereceu um anel de tucum. Justamente o tema do meu texto inacabado!

— Que puta coincidência! Pensei.

E, surpreso, acabei nem agradecendo. Fiquei de tal forma besta pensando nisso que nem percebi a meia-hora que elas ainda gastaram para finalmente saírem das lojas.

Em casa, diante novamente do meu teclado, e de anel preto no dedo, apaguei o texto. Ri. Ri sozinho.

Decidi usar o anel. Uso-o não para demonstrar nada, nem para ostentar qualquer coisa, mas porque vi nele o bêbado sarrista e as paraguaias envergonhadas, o rapaz drogado de Juiz de Fora, o vira-lata da estação, o Carlos Drummond, a biscate desgostosa, a negra das rosas brancas de Iemanjá e, claro, o hippie agradecido.

Tomara que ele demore a quebrar!

domingo, 3 de agosto de 2008

Veneza


Reflexo da lua nas águas
serenas
Luzes mansas nas portas
pequenas
Sombra amiga nas gôndolas ermas
cansadas
Encontro de almas lindas e trêmulas
amadas
Um vento quieto desce
solene
E o mar agradece
Ti voglio bene...
Ti voglio bene...


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Ao Estudante Anônimo


Liberdade é poesia
que não se desvia
das muralhas


Liberdade ultrapassa
Tanques brutos da praça
represálias

Liberdade é música
que vai além da letra
escrita
berrada
mortal:
Manifesto silencioso da verdade
Genuína paz celestial









quarta-feira, 30 de julho de 2008

Poema para Frei Tito


Conflito
e prosa
nas noites jovens
silenciosas
de Deus, dos homens
Sufocado
Ecoa o grito
calado
de Frei Tito

Justiça...
Paz...

Tito Nordestino
Tito de Alencar
Tito Clandestino
Tito de Além-Mar

Roma...
Paris...

Frei sem receio
Frei da viola
Frei que viola
A lei do freio

Terço...
Foice...

Frei Delito
Frei Bendito
Frei Maldito
Frei Tito

Fleury...
Marighela...

Tito
dominicano
bandido
procurado
do sol quadrado
do sol aflito
Santo profano
Santo contrito
avermelhado

Engels...
São Domingos...

Tito risonho
da utopia
Tito do sonho
da poesia
Tito aditado
todo ternura
Tito cansado
pela tortura
Tito marcado
pela saudade
Tito banido
pela história
Tito exilado
desigualdade
Sentenciado
pela memória

Pátria Amada..
Brasil...

Papagaio


A pipa a pino no céu
tem saudades do piá
que carrega o carretel

terça-feira, 29 de julho de 2008

Rabiola


O piá que empina pipa
também voa, participa
da aventura-ventarola



Sinuca


Com soberba de juiz
A vida nos prepara
nos mascara
com traços de giz


No vaivém
a vida nos empurra
a vida nos detém
esmurra
mantém


Refém

Mas também
quando a vida
bate ofendida
na vida de outrem
meu bem
não há saída
não há porém
a batida
doída
arruína

até o mais afoito
ninguém escapa

Encaçapa
Bola 8!

domingo, 27 de julho de 2008

Superna notula


Não escrevo poesia
é ela que me escreve
é ela que se atreve
a grafar-me, tirania


Poesia não se lavra
nasce sozinha
erva-daninha
erva-palavra


Poema não se poda
é soberano
sobre-humano
incomoda


A poesia está em tudo
é quase ente
onipresente
onidesnudo

sábado, 26 de julho de 2008

Vento

Quisera
mudar-me em sopro
vento
brisa branda
e jogar-me em vôo
solto!

Roubar pelas matas
errante
pétalas de açucena
e jogá-las em confete
no teu colo sutil
Tocar suave teu rosto
Soprar leve teus cachos
se cansada
sozinha
deitares à sombra do ipê-rocho
refrigério
e sentir-me no ar
dente-de-leão
pétalas no chão
Abranger teu corpo meigo
eu
vento apaixonado
Agitar teu vestido
sopro volúvel
caindo aragem
de teus seios aos quadris
fitar ligeiro teus olhos
frutos de castanheira
Contemplar teus dentes
alvo ramo de azaléias
Beijar tua alma
eu
brisa pungente
consagrar-me à tua carne moça
E em seguida
retornar
eu
livre
às mesmas matas
santuário


رقص شرقي

Dança!
Que meu peito batente te faz percussão.

Ferve!
Que teus seios ornados são fogo e paixão.

Balança!
Teus cabelo exalante perfume de incenso.

Escuta!
Meu respiro ofegante ao teu ritmo propenso.

Move!
Em curvas volúpias o teu ventre poético.

Beija!
Esta boca sedenta do teu sabor magnético.

Vê!
O fascínio que tuas pernas motivam neste mouro.

Completa!
O encanto fatal que jogaste em agouro.

Salta!
Que teu baile inebria mais que araq gelado.

Baila!
E tritura de vez meu coração judiado.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ave, Maria!

A tarde mansa e sem alarde,
Em brisa leve ao fim do dia,
Se mescla à noite às seis da tarde
E chama os crentes à Ave-Maria...

É nessa hora, quando anoitece,
Ao cerrar do breu como cortina,
Que a Virgem ouve a cada prece
De quem no mundo peregrina.

Que no teu rogo, Senhora minha,
Se ache o nome deste vão poeta.
Que meus rabiscos, qual ladainha,
Louvem de Deus a mais dileta.

Ao som sagrado de Gounod
Ou na sanfona orante de Luiz Gonzaga,
Ofereço cantando o que sou
Àquela que as dores apaga.

O badalar rijo do sino
Também lhe canta amor sincero,
Como o fez Tomás de Aquino
E até Martim Lutero!

Sob luz tíbia e à caneta,

poetizo eu à minha maneira,
Pois nas areias, José de Anchieta
Já exaltava a Medianeira.

E não há mortal que enumere

Os poetas todos da Mãe-Donzela:
Raimundo Correia, Dante Alighieri,
Olavo Bilac, Fagundes Varela...

E até que eu tenha fôlego no peito,
Também terei a poesia,
Que mostre todo meu respeito
E meu amor à Mãe Maria.


Orate, frates!

Ora,
Embora,
Em boa hora.

Vésper desponta

Esperarei que o sol caia no horizonte
E que a lua surja por detrás dos montes
E olhando a noite nascer sorridente
Procurarei a estrela mais reluzente
Cujo brilho as outras despreza
E pedirei baixinho, como quem reza:


"Ilumina, irmãzinha, os seus sonhos
e que os anjos lhe guardem, proponho
que esquente-lhe o coração, insisto
para que perceba enfim que eu existo
e que faça brotar-lhe um sorriso
cada vez que pensar em mim de improviso."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Bem-Aventuranças

Bendita Dona Amazília, que briga pela juventude.
Bendito Seu José, que sai de casa às cinco da matina para cortar cana e só volta à noitinha.
Bendita Dona Penha, desbocada e sorridente, que faz faxina em cinco casas diferentes para sobreviver.
Bendita Dona Mirtes, que vive da venda de seus confeitos.
Bendita a velhinha japonesa budista que varre a minha rua inteira todos os dias com sorriso largo.
Bendito pastor Cido, líder de uma comunidade neopentecostal que, de bicicleta, vende verduras para sustentar seus três filhos.
Bendita Professora Zilda, que educa como mãe seus alunos e me oferece nó-de-sogra que só ela sabe fazer.
Bendita Dona Isabel benzedeira, que dá esperança a quem vive aquém da saúde pública.
Bendito Louviral, filho da Dona Jandira, que à tinta desenha um mundo mais bonito.
Bendita Cíntia que, mesmo pobre, não aceita que a pobreza sirva de desculpa para quem se perde na vida.
Bendita Dona Elvira, professora aposentada, que mantém sozinha há mais de 50 anos uma escola numa propriedade rural.
Bendito J.I. que tenta de novo sair do mundo das drogas.
Bendito Arleto, que exalta minha terra com sua poesia.
Bendita Dona Nely, voluntária da Pastoral da Criança.
Bendito Seu Elói, o taxista, que faz corridas gratuitas pra vizinha anciã doente.
Bendita a filha da mãe que se matou, e que agora tem que cuidar sozinha da casa, dos irmãos e do futuro e, ainda assim, não blasfema.
Bendita Dona Joaquina, que reza o terço todos os dias intercedendo por todo mundo, sendo, mesmo analfabeta, a maior teóloga e pedagoga que conheço.
Bem-aventurada é minha gente, no seu peito aberto e nos seus pés vermelhos!

terça-feira, 22 de julho de 2008

Pseudopoema

Diante do teu olhar
castanho, prudente,
uma paz estridente
me vem perturbar.


E fogem meus versos
se você se aproxima
Mas que foda-se a rima!
Vá à merda o universo!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Jornada da Juventude

Enquanto em Sydney, cristãos do mundo inteiro participavam da 23ª Jornada Mundial da Juventude com o papa, na cidadezinha de Farol [da famosa Prefeita Dina Cardoso], jovens da região de Campo Mourão participavam da 1ª Jornada Diocesana da Juventude.


Eu também estava lá para dar uma palestra sobre a realidade dos jovens na nossa região, que não é nada boa pelos motivos que já evidenciei aqui mesmo, anteriormente. Encontrei jovens de várias idades e de todos os tipos: carismáticos, pejoteiros, marianos, cursilhistas, vicentinos, seminaristas, católicos de rito ucraniano, luteranos e até ateus. Conversei com vários deles, escutei suas expectativas, seus receios, suas músicas, suas frustrações, suas piadas e até me diverti jogando sinuca e ping-pong de madrugada enquanto arranjavam um lugar pra eu dormir.


Todavia, entre eles, o que me chamou atenção foi um grupo de jovens paulistas que vestiam roupas vermelhas, vendiam bombons e se destacavam pelo sorriso espontâneo e fácil, membros de uma tal Missão Pelicano. Depois da minha fala no sábado de manhã, uma vermelhinha - que chamava todo mundo de "santo" [inclusive a mim!] - me ofereceu um bombom de castanha, comentou sobre o que eu acabara de falar, perguntou o significado de algumas palavras latinas e falou da sua vida, de como deixou a família no Estado de São Paulo para viver em comunidade, servindo os pobres, aqui no interior do Paraná. E isso tudo me deixou muito esperançoso.

Jovens da comunidade Missão Pelicano.

Saí de Farol animado, com a esperança de que esses jovens serão faróis para a realidade escura que enfrentam hoje. Eu creio na força de mudança da juventude. E a eterna Helena Kolody também:

JOVEM
Suporta o peso do mundo.
E resiste.

Protesta na praça.
Contesta.
Explode em aplausos.

Escreve recados
nos muros do tempo.
E assina.

Compete
No jogo incerto da vida.

Existe.

Força juventude!