domingo, 31 de agosto de 2008

Visitantes recentes


O que querem insistentes
e que buscam [me perscrute]
os "visitantes recentes"
que vasculham meu Orkut?

E por que tal descaso
em me deixar só pegadas?
Se me visitam por nada,
o fazem só por acaso?

Quem serão esses vultos
que me deixam inquieto?
Serão amigos secretos
ou inimigos ocultos?

sábado, 30 de agosto de 2008

Jovita Xavier Padilha


Tia Jovita
mulher gigantesca
versão gauchesca
de Maria Bonita

Jovita Padilha
de olhar farroupilha
de bota e bombacha
fingindo ser macha
chapéu e chicote
sem luxo ou fricote

Tia Jovita
pioneira tão brava
feita em Guarapuava
onde a saudade palpita

Jovita Xavier
esculpida mulher
em madeira de pinho
pelo seu Sertãozinho
modelada senhora
no inverno de outrora
pelo findo presente
que faz tão-somente
que a vida da gente
vire foto amassada
em outra temporada
[que disparate!]

Saboriemos o mate,
enquanto está quente
antes que o poente
nossa cor arrebate

Aproveitemos o mate,
que no fim, veja só,
tudo volta a ser pó.



quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Miopia




Serão dez ou serão onze
os seus óculos de bronze?
Por favor ou por astúcia,
não reponham tal minúcia
na estátua que verseja.
Não permitam que ela veja
que a maldade que profana
ultrapassou Copacabana.


terça-feira, 26 de agosto de 2008

Antagonista


Amplitude e exigüidade
Começo e extremidade
Injustiça e eqüidade
Egoísmo e caridade
Brisa e tempestade
Soberba e humildade
Repulsa e saudade
Opostos de verdade?

Frieza e emoção
Conserva e supressão
Parcimônia e profusão
Meiguice e sequidão
Prazer e aflição
Descuido e precaução
Demora e lentidão
Fazem mesmo oposição?

Tristeza e alegria
Marasmo e energia
Franqueza e hipocrisia
Sossego e euforia
Realidade e fantasia
Gentileza e grosseria
Barateza e carestia
Representam ironia?

Palavras que equilibro
E não faço acepção:
São antônimas no livro,
Mas iguais no coração.



Crise


Já reparei que quando fico mal-humorado não me vem poema nenhum. Nenhunzinho. Não vem rima nem nada.

Ou será que é a poesia que faz birra de vez em quando? Talvez seja isso. O fato é que hoje vou dormir sem verso.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Cerejas

Cerejas enchem os olhos, não a barriga. Não a minha.

Padre Jerônimo não é o único que não entende "essas coisas brasileiras"...

domingo, 24 de agosto de 2008

13


Guerra troiana há 13 séculos de Cristo,
amor de Páris por Helena jamais visto
que se repete ao século XIII, temporada
de amor anônimo em pleno viço das Cruzadas.
Eram treze à távola d'último jantar
São trezes rosas à Rainha do Mar
Treze é primo, é seqüência Fibonacci,
Mistério ágata de treze vívidos quilates.
A 13 de maio na Cova da Iria,
Uns piás enxergaram a Virgem Maria.
Noutro 13 doutro maio, por ventura,
se pretendeu amenizar a escravatura.
Treze romances de Nadine Gordimer
Treze epístolas de São Paulo em turnê
"Até quando, ó Senhor, te esquecerás?"
Pergunta o Salmo [que é 13, aliás]
Treze virgens no paraíso de Allah
esperam o bravo que morrer sem reclamar.
Treze ramais cortando o velho Peabiru
Treze pátrias pela América do Sul
Die Dreizehnlinden apelidada Treze Tílias,
de onze estátuas e outras duas maravilhas.
Treze profetas escritores tem a Bíblia
Treze zepelins dispararam contra a Líbia
Aos 13 anos se descobre a adolescência,
e com mais 13 é que se paira a sapiência.
E até a bola, mesmo que se aburguese,
também depende um tal Clube dos 13.
"Treze Homens e um Segredo" no cimena
"Jim Knopf e os 13 Piratas" sem problema
Verei depois da 13ª pétala da idade,
se o bem-me-quer que diz a flor será verdade.
Só saberei se a flor não for tão insensata,
quando vier o novo mundo da 13ª surata,
vencendo assim a fera estranha como eclipse
que fala o capítulo 13 de Apocalipse.

Poema para a Poetisa


Flor do ipê do pé de Assaí posto
Epopéia nos idos raios de agosto
Ipê mesmo, mão de Deus, dedicatória
caindo angélico nos versos da história

Aproveitar a poesia pra proveta
Chapar de chá até rachar as borboletas
Salgar as rosas que estejam dessalgadas
E adoçar as solitárias calcinadas
E, com lirismo [embora seja um certo fardo],
fazer sorrir o mais revolto Leonardo

A chuva última haverá de ser primeira
que da Medusa apaga o fogo em cabeleira
e molha fértil e de forma tão precisa
a inspiração brotando à mão da poetisa
em Curitiba, pelos parques, pelas ruas
em Peabiru, de pó rubi, de estrelas cruas
para regar, banhar de luz a poesia
eternizar o que compor Bárbara Lia

sábado, 23 de agosto de 2008

Poema do Amor Imperativo


Toca-me!
Um toque sutil que for, um encontro de asas de beija-flor
Um sussurro leve ao ouvido, calafrio abributo atrevido
Um beijo-despertar dum sonho que instiga a sonhar.

Venha!
Neblina amiga das noites de sábado,
é teu beijo banhando meus lábios.
Como brisa que arranca dos montes a aurora,
tal e qual levas meu tudo embora.

Acorda-me!
Que já és a minha manhã, filha da noite, da madrugada irmã
És sonho, és desejo de abraço e de beijo
Que espero como engano sincero

Sinta-me!
Num misto de sentimento, meu coração ciumento.
Viver tua essência e o que eu não vejo: eis meu desejo
Mas os desejos de vez em quando tormam o fogo mais brando
E a brandura nos faz
cúmplices do jamais

Suba!
Sobre as asas da aventura
Onde os sonhos se tornam realidade
Onde não poderemos voar de verdade

Veja!
Confio a minha alma ao teu olhar sábio
A fim de que haja outro eu, um outro Fábio

Coragem!
Presenteia-me o sonho do mundo onde resides
E acompanha-me pela mão nos meus átimos tristes
Entre universos tão distantes
Entre dois mundos tão vizinhos
Aí está meu coração

Toma-o!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Latim


Quem vai a Roma
Não vaia Roma
[Nem seu idioma]



Paranaguá


O vento é um poeta que vagueia
pela praia, vagabundo, em ziguezague
Escreve os seus versos sobre a areia
Pede às ondas invejosas que os apague

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Amar, Verbo Transitivo


Nasço amores
Chego amassos
Moro abraços
Chovo flores


Amanheço idades
Anoiteço brigas
Sorrio cantigas
Choro saudades


Converso festas
Fracasso juras
Morro loucuras
Viajo promessas


"Amo". E sem objeto [direto / indireto]?
"Amo". E sem complemento? Que tom mais cinzento!
"Amo". Sem-eira-nem-beira? Que besteira!
"Amo". E só? Tenha dó!


Que me perdoe Mário de Andrade
e Carlos Drummond me permita,
mas, se o amor não transita,
não é amor de verdade:
É parasita!


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sopro


Admiro a vaidade do vento
escondida, fingindo ser paz
Ela veste de flor o cimento
e penteia saudosa os trigais
Ela sopra um doce tormento
nas marolas que beijam o cais
Ela esconde no seu movimento
armadilha aos mais sábios mortais

domingo, 17 de agosto de 2008

Peabiruta


Eu peregrino
dia por dia,
longa romaria

Eu peregrino
no pó, no espinho
durante o caminho

Eu peregrino
aspirando outros ares
da terra-sem-males

Eu peregrino

piso a terra laranja
que meu pé desarranja

Eu peregrino
e se às vezes me exalto
não prefiro o asfalto

Eu peregrino
em rastros inteiros
de outros romeiros

Eu peregrino
Faço irmão o destino
e irmãs as estrelas
e mesmo sem vê-las
Peregrino



Foto da Peregrinação pelo Caminho do Peabiru, promovida pelo NECAPECAM [Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na Região de Campo Mourão-PR], no trecho entre Engenheiro Beltrão, Terra Boa, Peabiru e Araruna. Setenta quilômetros a pé e a pó.

sábado, 16 de agosto de 2008

Eclipse


Somos, a contragosto
uma antítese, de fato
E digo no teu rosto:
— Teu certo é errado!


Meu exato é incerto
sou humano
Mas, às vezes, acerto
por engano


Nós somos do contra
Minha vida é distante
E a tua, uma elipse
Mas, quem sabe um instante
A gente se encontra
E... eclipse!


Carneiro ao Vinho


Terceiro domingo de agosto
Festa típica no Sul
Culinária que tem gosto
do meu chão, Peabiru

Gosto rude do Pinheiro
imponente lá na praça
da Bica do Saltinho

da Maria-Fumaça
indiscreta no Trevinho

Da Mata do Eurico
ninho dos colibris
da trilha do índio
da majestosa Matriz

Tem gosto de procissão
pelas noites de Quaresma
Sabor bom de São João
da fogueira grande em festa
Tem jeito de pioneiro
em 14 de Dezembro
tem um gosto brasileiro
e do resto que não lembro

Carne de ovelha
já temperada
Tomate e cebola
bem fatiada
Alho e salsinha
[pra dar um cheiro]
Se quiser, cebolinha
[ou outro tempero]
Batata picada
em cubos grosseiros
Óleo de oliva
[toque especial]
pimenta-do-reino
colheres de sal
Bem misturado
com muito carinho
E tudo regado
a dois litros vinho

Tampada a panela
é tacar fogo nela
depois de uma hora e pouca
e muita água na boca
e é só comê-lo então
com arroz e com pirão

Carneiro ao molho de vinho
Igual iguaria não há
Sabor delicado, aroma divino
Melhor gororoba do Paraná


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Estiagem


O sol volta radiante
Leva a chuva lacrimosa
Deixa tudo como antes

Chuva


Nuvem densa no céu
A água que invade
são gotas de saudade

Ausência


Internet, celular, saudade
Ônibus, rua, passos
Mãos, beijos, abraços
Refri, olhar, vontade


Harmonia de covardia e bravura
Percorre meu teimoso pensamento
Que pronto me diz por alento:
Nossa história não foi só aventura


Em cada giro lento do ponteiro te penso
E desejo ter-te no aconchego do meu braço
Ouvir no teu seio o pulsar em descompasso
Sentir-te o cheiro qual aroma do incenso


Papel, lápis, movimento
Computador, delete
Café, música, tapete
Ausência, sentimento


Espera, espera, espera...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Felicidade


Sinto-te perto
candura
decerto

Sinto-te dentro
nua e crua
alento

Sinto-te quente
fervura
crescente

Sinto-te fria
de repente
ousadia

Sinto-te poema
eloqüente
[com trema!]

Sinto-te peregrina
urgente
adrenalina


Tempestade gaúcha


Gotas errantes
imitam vanera
Caem dançantes
sem eira nem beira


Um vento criança
recorda sanfona
Fissura de dança
me vem logo à tona




terça-feira, 12 de agosto de 2008

Rua dos Bobos, № 0


Morreu uma professora que educou gerações de brasileiros. Fez o melhor que pôde a vida toda, apesar da remuneração miserável que recebia. Morreu e pouca gente ficou sabendo. Quase ninguém, nem mesmo aqueles que agora podem ler estas linhas só porque ela, pacientemente, os ensinou a ler.

Mas, assim como ela, todos os dias, muita gente boa vai embora desapercebida: o bombeiro que morreu queimado cujo salário mal dava pra pagar as despesas de casa; o jovem que fazia trabalhos voluntários na periferia; a freira que deixou o conforto da pátria materna e foi assassinada por defender a causa dos pobres; os torturados desaparecidos durante a ditadura militar... Gente de todos os tipos, de idades diversas, com sotaques e ideologias diferentes, que, quando vivos, não receberam nada além de portas na cara, risadinhas e comentários irônicos, indiferença, descrédito e ingratidão, muita ingratidão... quem sabe até ganharam meia-dúzia de elogios [clichês] fingidos e forçados, falas prontas repetidas trocentas vezes em cenas de novelas. E, depois de mortos, homenagens. Vãs. Vazias. Artificiais, com jeito de plástico made in China. E é sobre isso exatamente que tenho pensado nesses dias.

Celebram-se cultos e missas solenes com gente importante [com anúncios na Tribuna! Uia!] para tentar ressarcir o fulano que em vida foi ignorado por completo. E vejam só: mesmo assim, ele ganhará bustos na praça, onde o tempo, os pombos e os pichadores se encarregarão de manchar, pintando, dessa forma, o mais autêntico retrato do que receberam dos bão-da-boca em vida. Os donos do jogo darão o nome do indivíduo a ruas, avenidas, ginásios de esporte, escolas, asilos, blocos universitários, centros culturais, museus, estádios e o caramba. Inaugurarão viadutos e lhes emprestarão seu nome. Criarão leis e outra vez o nome do desprezado estará lá, bem no título, bem bonitinho. E pronto! Linda homenagem! Está tudo devidamente indenizado, como manda o figurino. É como se num passe de mágica [ou de macumba], toda a falta de reconhecimento, todo o desrespeito que tais idealistas receberam durante a vida e levaram magoados consigo para o túmulo fossem apagados. Como se essa babação-de-ovo póstuma tivesse o poder de jogar pra debaixo do tapete – já grosso de pó velho – as frustrações impostas. Sim-salabim!

Só se esquecem, porém, que rituais e homenagens póstumas não apagam traições. Estátuas não compensam torturas. Letreiros luminosos em prédios edificados com grana pública não ofuscam isolamentos cruéis. Jardins no centro não limpam cusparadas. Isso não basta.

Não basta dar o nome de uma professora a uma escola pública. É pouco demais! É necessário brigar para que a escola pública seja promovida de verdade e os educadores, valorizados. Eis a homenagem verdadeira!

Construir um belo obelisco a pacifistas regionais não basta. É mísero! Insensatez! Para homenageá-los, seria preciso construir a paz e a justiça pela qual lutaram, e não monumentos apenas.

Não basta pregar uma placa para um militante idealista numa salinha. Isso é nada! Importa tirar do túmulo seus ideais, levar suas idéias adiante.

Que é dar a um conjunto habitacional o nome de um político honesto? [Sim, eles existem.] Nada! O que vale mesmo é vestir a camisa da honestidade e bater o pé quando esta faltar.

Não basta beatificar um mártir. É muito pouco. É preciso imitar-lhe a coragem, a perseverança e ajudar outros corajosos e perseverantes em suas lutas, para que não precisem conhecer o batismo de sangue.

Os bão-da-boca sabem disso, minha gente. Ah, se sabem! Confiam devotamente, de olhos fechados, na passividade, na imbecilidade das massas; porque sua consciência, sua criticidade, eles soterraram no concreto do obelisco.

Os bão-da-boca, à luz de flash e sob o aplauso alienado de uma platéia simples e comovida, inauguram monumentos póstumos e enterram o "homenageado" de vez. Ele e as idéias pelas quais lutava, pelas quais deu a própria vida.

Pro diabo com seus bustos! Fodam-se suas homenagens fingidas! Que mané nome de museu! Que mané Tribuna! Enfiem no cu seus obeliscos, hipócritas do caralho!

Plaquinhas de bronze? Estátuas? Nomes de avenida? Tudo isso vale muito pouco, meu caro.

Muito pouco mesmo.

E até a cruz, cujo simbolismo amo e defendo, é muito pouca coisa. Quero menos cruzes e mais Cirineus.



Tributo aos amigos


Meu coraçao peabiruta
Gratidão fertiliza
E obrigado tributa

Aos meus caros amigos
Que de forma precisa
Me abrandam perigos

E dividem comigo:
Piadas
Brinquedos
Problemas
Torpedos
Cachaça
Segredos
Suas preces
Seus medos

Aos amigos de berço
Aos amigos de acaso
Aos amigos de terço
Aos amigos de passo

Aos amigos à vista
Aos amigos a prazo
Aos amigos de trampo
Aos amigos de aço

Aos amigos grandes
Aos amigos pequenos
Aos amigos sinceros
E aos mais ou menos

E a quem do meu lado
Peregrina essa estrada
Um abraço apertado!
Uma Skol bem gelada!


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Rivestita di Sole


Madonnina, mi dia
Le prego
un tempo ancora
per sentire l'allegria
spiego
che in me si affiora


Lei, Mamma Maria
che dal alto collabora
da sempre fino ad ora
Mi regali pazzia
per diventarmi aurora


Ma se Le sembr' affronto
Le chie'dunque per corolle
che mi faccia almeno sole
e mi divento un bel tramonto


E pronto!



domingo, 10 de agosto de 2008

Chuva dominical


Nos domingos mais tristonhos
turbulentos de quietude
É a densidade dos meus sonhos
que me devolve a juventude.

Pai


De você, amo o silêncio
e não as palavras
Prefiro as não ditas, as caladas
omissas


De você, amo a prudência
dizer ponderado, vizinha distância
concisa


De você, amo o terço
e os joelhos constantes, dobrados
devotos


De você, amo os calos
nas mãos operárias, pedreiras
dignas


Amo-lhe ainda a instrução imperfeita
as letras trêmulas, vacilantes
breves


De você, amo o que os outros não amam
e tudo que não sei expressar além
do empecilho.
A rudeza que estes versos reclamam
dizem apenas que quero-lhe bem.
Teu filho.

Torre de Babel


Habitamos uma só tribo,
que circunda este planeta.
A fumaça dant'escribo
é que publica igual gazeta.


Construímos um edifício
em plena mata selvagem
e fazemos da linguagem
arco que dispara míssil


Nossa língua não se entende
nem entre os conterrâneos.
Pois o que há nos nossos crânios
já não é mais transparente.


E por mais que nós falemos
de modo igual este idioma,
nos fechamos em redoma
bem maior do que já temos.


Sino apaixonado


No esplendor da matriz
santuário divino
a cantiga do sino
a cidade bendiz


Sino, feito viola,
lá no alto da igreja,
em canção sertaneja,
minha terra namora.

Canta, bronze amigo,
tua paixão comovente,
que o peito da gente
te dá paga e abrigo.

Canta teu suave libido
pois um dia quem sabe
antes que a missa se acabe
sejas correspondido.






sábado, 9 de agosto de 2008

Algea, eleison!


Que é a dor,
senão fria corrente
que une os mortais?

Que é o amor,
senão medo pungente
de murmurar ais?

É a dor quem desenha
os santos e os pecadores.
É ela a mesma senha
nas prisões e nos andores.

Pois santidade e imperfeição
têm nas veias mesmo sangue:
São filhas da aflição,
paridas num mesmo tanque
cujo nome é coração.

Cheque pré-datado

Aproveito
Escrevo meu caminho à caneta
O que está feito, está feito
Não tem jeito

Uso lápis de vez em quando
Mas não que o medo me retenha
Se há perigo, pois que venha!
Que continuo rabiscando

Mas se eu rabisco em grafite
não uso nunca borracha
que zomba, esculacha
sem dó nem limite.

Assim faço meu destino
Sem rasuras de errorex
Pois a rubrica dos meus cheques
Sou eu mesmo que assino.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Papel de parede


Saudade feroz
de quando as paredes ouviam,
condenavam, proibiam
a nossa voz


Errávamos menos
quando as paredes tinham ouvidos.
Pois precavidos,
éramos plenos.


Hoje os ouvidos têm paredes.
Não é esquisito?
Pois nem meu grito
tu já não sentes.


Reclamo em vão...
Mas se há paredes
Pintemo-las verdes
pra ocultar solidão

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Parafina


De vez em quando
minha fé resmunga
reclamando

Inconstância súbita
me questiona
me põe em dúvida
me indaga

Mas meu pavio não se apaga
segue aceso
e embora ileso
em chaga

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

3 x 1



Não faço
do fracasso
placar final.

Nem a pau!

Converto derrota
em pontapé inicial.

Château Lafite Rothschild no elevador


Se o que se fala dos extintos
fosse dito ainda em vida
com mesma lábia devida
e semelhante instinto
quem sabe nem morressem
os que cruzam labirintos


Pois palavra cura
Palavra é ânimo
Potência pura
Poder anônimo


E a vida é festa
completa e única
somos convivas
com mesma túnica


Somos garçons em black tie
com palavras na bandeja
Não servimos verbo que retrai
jamais, a quem quer que seja


É tão besta brindar
com palavra azeda
palavinagres
indigestas
e guardar os vinhos
que são milagres
pra outras festas


Não deixe na estante
taças donzelas
A hora de beber é agora
sem cautelas
sirva o melhor espumante
porque num instante
tudo evapora


Brindemos já, meu amor
que a vida é festa no elevador
que logo chega ao térreo
Não leve tão a sério
o mistério e o que for


Garçom, um copo de licor,
por favor,
de palavras, depressa!
É o que mais me interessa.





Rochas


O receio do novo
distancia estrelas
impede-nos vê-las


O medo da luz
condensa, reduz
homens em pedras


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Solzhenitsyn

Os telejornais já devem ter falado tudo sobre a morte do escritor russo Alexander Solzhenitsyn, Nobel de Literatura em 1970, ferrenho defensor da liberdade pessoal de expressão em oposição às doutrinas ideológicas totalitárias que fodem a vida e a história.

Um breve Поезия para ele.






Quem faz da caneta
espada contra o mal
pela paz
se faz
lagarta
Descarta
o casulo
escuro
ressurge borboleta

Cachecol


Chorei teu gelo
sem derretê-lo.
É tempo de soluçar geadas...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Anel de tucum

Como são as coisas, não é? Pois ontem de manhã, depois dum poema, tinha começado uma crônica pondo em cheque o uso pessoal de símbolos religiosos e ideológicos: crucifixos, fitinhas, adesivos, broches partidários e, especificamente, o anel de tucum e porque eu deixei de usar esse pequeno elo escuro feito da casca de um coquinho que liga ideologicamente seu usuário ao sofrimento do povo latino-americano.

Comecei argumentando do ponto de vista prático, numa introdução curta e irônica, sobre a fragilidade de um artefato de coco que quebra com facilidade. Enquanto eu evoluía arrogante e filosoficamente para o seguinte parágrafo, em que tratava de questionar a simbologia que o uso do anel encerra principalmente com relação à opção preferencial pelos pobres proposta aos católicos nas últimas décadas e que o termo "preferencial" não pode ser entendido como "exclusiva", minha irmã me telefonou. Ser interrompido no meio duma composição é ótimo! Ela queria que eu a levasse a Campo Mourão, numa ponta de estoque. Como já tinha perdido o fio da meada mesmo, aceitei.

Consumista que sou, comprei bastante. Mais até que minha irmã e minha mãe juntas, que perdem horas indecisas sobre o que e onde comprar. Sou prático: digo logo o que quero e o limite de preço aos vendedores e pronto. Não tenho muita paciência pra ficar escolhendo cores, formas e o diabo. E ao passo que minha irmã hesitava na trocentésima loja e minha mãe vagava noutra, resolvi respirar, esperar, conformado, do lado de fora, sentado no meio-fio.

Enquanto saboreava um quebra-queixo, um hippie, sentado ali perto, me ofereceu uns colares que estava vendendo, desses com sementes. E começou a puxar papo.

Agora, um desvio de assunto longo e meio no sense: sou recordista em conversas casuais com gente esquisita: semana passada, esperando ônibus na rodoviária de Peabiru [que está em reformas] fui parar exatamente no meio de um diálogo hilário entre um grupo de paraguaias e um bêbado [bebaço mesmo] que tentava entrevistar as moças pensando que fossem índias. Como não agüentei e tive um ataque de gargalhadas [também sou recordista em gargalhadas] o homem, bem pra lá de Bagdá, achou que meu riso fosse um aval pra que viesse confidenciar-me a sua vida [brava!]. E eu ouvi tudinho.

Numa outra ocasião, olhando a paisagem amarelada de Minas pela janela do ônibus que me levava São João Del Rey, percebi que um farelo branco sujava meu braço: a janela de trás, aberta, soprava a cocaína que um cara – de no máximo 20 anos – consumia sem cerimônias na poltrona imediatamente atrás da minha. Transtornado pelo efeito da droga, pediu para que eu não o censurasse e começou a contar suas desventuras amorosas [disse que a namorada tinha morrido naquele mesmo dia vítima de leucemia] e frustrações profissionais. Tentei dar uns conselhos [inúteis], mas ouvi mais e falei menos. As pessoas querem ser ouvidas, não ensinadas.

Ainda nas Gerais, e mesmo cansado, fui conhecer a estação ferroviária à noitinha: outra conversa inusitada. Um cachorro começou a me seguir, como se já me conhecesse. Entre um monte de gente que olhava a decoração de Natal, o bendito do vira-lata teimou me conhecia. Começamos, então, um monólogo. Só que quem falava era o cachorro. Sim. Falava com o olhar. Sabe aquele olhar de quem quer dizer alguma coisa? Pois eu jurava que esse cachorro queria me falar alguma coisa. O quê exatamente, não sei. Mas dei-lhe atenção. Quem sabe tenha sido efeito indireto da janela aberta do ônibus...

Situação semelhante vivi no Rio, em Copacabana. Sentei-me ao lado da estátua de Drummond e tivemos altos papos. Quero dizer, outro monólogo: o da estátua. Se bobear, devo ter escutado até A morte do leiteiro, meu poema preferido do poeta itabirano. E, na mesma data, à noite, olhando o balanço noturno das ondas, outro papo demorado: uma prostituta [não tão jovem], cansada de chamar a atenção dos alemães que passavam pela orla, sentou-se perto de mim. Ela virada para a rua, eu para o mar. Começou a falar sozinha, xingando os europeus pelo desprezo. Começou reclamando baixinho da vida, e foi aumentando o tom na medida em que percebia que não falava sozinha. Falou da humilhação que tinha que submeter para sustentar os três filhos, da casa de família onde trabalhava durante o dia e até, veja só, da morte de uma tartaruga de estimação. E eu ouvi tudo. Uma meia-hora depois uma senhora negra, com um ar alegre, toda de branco, passou por onde eu estava sentado, ainda perto do Drummond, e foi pra pertinho do mar. Depois de jogar um ramalhete de rosas pra Iemanjá e de balbuciar uma oração, voltou, sentou-se ao meu lado e começou a contar que tinha ido à praia agradecer à Rainha do Mar porque o marido voltara pra casa depois de três anos sem dar notícia. Achei aquilo tudo muito bonito. E fiquei emocionado. Ouvi e calei.

Fechando o parêntese e voltando ao papo com o hippie vendedor de colares, que também falou da própria vida, vida errante e litorânea. Depois de comprar dois colares com contas bem exageradas [que mais parecem burquinhas], continuei o papo por mais uns 15 minutos [e minha irmã ainda indecisa sobre o que comprar, perdida no meio dum mundaréu de gente]. Quando me levantei pra sair, o cara, em agradecimento pelo papo e pela compra, me ofereceu um anel de tucum. Justamente o tema do meu texto inacabado!

— Que puta coincidência! Pensei.

E, surpreso, acabei nem agradecendo. Fiquei de tal forma besta pensando nisso que nem percebi a meia-hora que elas ainda gastaram para finalmente saírem das lojas.

Em casa, diante novamente do meu teclado, e de anel preto no dedo, apaguei o texto. Ri. Ri sozinho.

Decidi usar o anel. Uso-o não para demonstrar nada, nem para ostentar qualquer coisa, mas porque vi nele o bêbado sarrista e as paraguaias envergonhadas, o rapaz drogado de Juiz de Fora, o vira-lata da estação, o Carlos Drummond, a biscate desgostosa, a negra das rosas brancas de Iemanjá e, claro, o hippie agradecido.

Tomara que ele demore a quebrar!

domingo, 3 de agosto de 2008

Veneza


Reflexo da lua nas águas
serenas
Luzes mansas nas portas
pequenas
Sombra amiga nas gôndolas ermas
cansadas
Encontro de almas lindas e trêmulas
amadas
Um vento quieto desce
solene
E o mar agradece
Ti voglio bene...
Ti voglio bene...


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Ao Estudante Anônimo


Liberdade é poesia
que não se desvia
das muralhas


Liberdade ultrapassa
Tanques brutos da praça
represálias

Liberdade é música
que vai além da letra
escrita
berrada
mortal:
Manifesto silencioso da verdade
Genuína paz celestial