quarta-feira, 30 de julho de 2008

Poema para Frei Tito


Conflito
e prosa
nas noites jovens
silenciosas
de Deus, dos homens
Sufocado
Ecoa o grito
calado
de Frei Tito

Justiça...
Paz...

Tito Nordestino
Tito de Alencar
Tito Clandestino
Tito de Além-Mar

Roma...
Paris...

Frei sem receio
Frei da viola
Frei que viola
A lei do freio

Terço...
Foice...

Frei Delito
Frei Bendito
Frei Maldito
Frei Tito

Fleury...
Marighela...

Tito
dominicano
bandido
procurado
do sol quadrado
do sol aflito
Santo profano
Santo contrito
avermelhado

Engels...
São Domingos...

Tito risonho
da utopia
Tito do sonho
da poesia
Tito aditado
todo ternura
Tito cansado
pela tortura
Tito marcado
pela saudade
Tito banido
pela história
Tito exilado
desigualdade
Sentenciado
pela memória

Pátria Amada..
Brasil...

Papagaio


A pipa a pino no céu
tem saudades do piá
que carrega o carretel

terça-feira, 29 de julho de 2008

Rabiola


O piá que empina pipa
também voa, participa
da aventura-ventarola



Sinuca


Com soberba de juiz
A vida nos prepara
nos mascara
com traços de giz


No vaivém
a vida nos empurra
a vida nos detém
esmurra
mantém


Refém

Mas também
quando a vida
bate ofendida
na vida de outrem
meu bem
não há saída
não há porém
a batida
doída
arruína

até o mais afoito
ninguém escapa

Encaçapa
Bola 8!

domingo, 27 de julho de 2008

Superna notula


Não escrevo poesia
é ela que me escreve
é ela que se atreve
a grafar-me, tirania


Poesia não se lavra
nasce sozinha
erva-daninha
erva-palavra


Poema não se poda
é soberano
sobre-humano
incomoda


A poesia está em tudo
é quase ente
onipresente
onidesnudo

sábado, 26 de julho de 2008

Vento

Quisera
mudar-me em sopro
vento
brisa branda
e jogar-me em vôo
solto!

Roubar pelas matas
errante
pétalas de açucena
e jogá-las em confete
no teu colo sutil
Tocar suave teu rosto
Soprar leve teus cachos
se cansada
sozinha
deitares à sombra do ipê-rocho
refrigério
e sentir-me no ar
dente-de-leão
pétalas no chão
Abranger teu corpo meigo
eu
vento apaixonado
Agitar teu vestido
sopro volúvel
caindo aragem
de teus seios aos quadris
fitar ligeiro teus olhos
frutos de castanheira
Contemplar teus dentes
alvo ramo de azaléias
Beijar tua alma
eu
brisa pungente
consagrar-me à tua carne moça
E em seguida
retornar
eu
livre
às mesmas matas
santuário


رقص شرقي

Dança!
Que meu peito batente te faz percussão.

Ferve!
Que teus seios ornados são fogo e paixão.

Balança!
Teus cabelo exalante perfume de incenso.

Escuta!
Meu respiro ofegante ao teu ritmo propenso.

Move!
Em curvas volúpias o teu ventre poético.

Beija!
Esta boca sedenta do teu sabor magnético.

Vê!
O fascínio que tuas pernas motivam neste mouro.

Completa!
O encanto fatal que jogaste em agouro.

Salta!
Que teu baile inebria mais que araq gelado.

Baila!
E tritura de vez meu coração judiado.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ave, Maria!

A tarde mansa e sem alarde,
Em brisa leve ao fim do dia,
Se mescla à noite às seis da tarde
E chama os crentes à Ave-Maria...

É nessa hora, quando anoitece,
Ao cerrar do breu como cortina,
Que a Virgem ouve a cada prece
De quem no mundo peregrina.

Que no teu rogo, Senhora minha,
Se ache o nome deste vão poeta.
Que meus rabiscos, qual ladainha,
Louvem de Deus a mais dileta.

Ao som sagrado de Gounod
Ou na sanfona orante de Luiz Gonzaga,
Ofereço cantando o que sou
Àquela que as dores apaga.

O badalar rijo do sino
Também lhe canta amor sincero,
Como o fez Tomás de Aquino
E até Martim Lutero!

Sob luz tíbia e à caneta,

poetizo eu à minha maneira,
Pois nas areias, José de Anchieta
Já exaltava a Medianeira.

E não há mortal que enumere

Os poetas todos da Mãe-Donzela:
Raimundo Correia, Dante Alighieri,
Olavo Bilac, Fagundes Varela...

E até que eu tenha fôlego no peito,
Também terei a poesia,
Que mostre todo meu respeito
E meu amor à Mãe Maria.


Orate, frates!

Ora,
Embora,
Em boa hora.

Vésper desponta

Esperarei que o sol caia no horizonte
E que a lua surja por detrás dos montes
E olhando a noite nascer sorridente
Procurarei a estrela mais reluzente
Cujo brilho as outras despreza
E pedirei baixinho, como quem reza:


"Ilumina, irmãzinha, os seus sonhos
e que os anjos lhe guardem, proponho
que esquente-lhe o coração, insisto
para que perceba enfim que eu existo
e que faça brotar-lhe um sorriso
cada vez que pensar em mim de improviso."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Bem-Aventuranças

Bendita Dona Amazília, que briga pela juventude.
Bendito Seu José, que sai de casa às cinco da matina para cortar cana e só volta à noitinha.
Bendita Dona Penha, desbocada e sorridente, que faz faxina em cinco casas diferentes para sobreviver.
Bendita Dona Mirtes, que vive da venda de seus confeitos.
Bendita a velhinha japonesa budista que varre a minha rua inteira todos os dias com sorriso largo.
Bendito pastor Cido, líder de uma comunidade neopentecostal que, de bicicleta, vende verduras para sustentar seus três filhos.
Bendita Professora Zilda, que educa como mãe seus alunos e me oferece nó-de-sogra que só ela sabe fazer.
Bendita Dona Isabel benzedeira, que dá esperança a quem vive aquém da saúde pública.
Bendito Louviral, filho da Dona Jandira, que à tinta desenha um mundo mais bonito.
Bendita Cíntia que, mesmo pobre, não aceita que a pobreza sirva de desculpa para quem se perde na vida.
Bendita Dona Elvira, professora aposentada, que mantém sozinha há mais de 50 anos uma escola numa propriedade rural.
Bendito J.I. que tenta de novo sair do mundo das drogas.
Bendito Arleto, que exalta minha terra com sua poesia.
Bendita Dona Nely, voluntária da Pastoral da Criança.
Bendito Seu Elói, o taxista, que faz corridas gratuitas pra vizinha anciã doente.
Bendita a filha da mãe que se matou, e que agora tem que cuidar sozinha da casa, dos irmãos e do futuro e, ainda assim, não blasfema.
Bendita Dona Joaquina, que reza o terço todos os dias intercedendo por todo mundo, sendo, mesmo analfabeta, a maior teóloga e pedagoga que conheço.
Bem-aventurada é minha gente, no seu peito aberto e nos seus pés vermelhos!

terça-feira, 22 de julho de 2008

Pseudopoema

Diante do teu olhar
castanho, prudente,
uma paz estridente
me vem perturbar.


E fogem meus versos
se você se aproxima
Mas que foda-se a rima!
Vá à merda o universo!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Jornada da Juventude

Enquanto em Sydney, cristãos do mundo inteiro participavam da 23ª Jornada Mundial da Juventude com o papa, na cidadezinha de Farol [da famosa Prefeita Dina Cardoso], jovens da região de Campo Mourão participavam da 1ª Jornada Diocesana da Juventude.


Eu também estava lá para dar uma palestra sobre a realidade dos jovens na nossa região, que não é nada boa pelos motivos que já evidenciei aqui mesmo, anteriormente. Encontrei jovens de várias idades e de todos os tipos: carismáticos, pejoteiros, marianos, cursilhistas, vicentinos, seminaristas, católicos de rito ucraniano, luteranos e até ateus. Conversei com vários deles, escutei suas expectativas, seus receios, suas músicas, suas frustrações, suas piadas e até me diverti jogando sinuca e ping-pong de madrugada enquanto arranjavam um lugar pra eu dormir.


Todavia, entre eles, o que me chamou atenção foi um grupo de jovens paulistas que vestiam roupas vermelhas, vendiam bombons e se destacavam pelo sorriso espontâneo e fácil, membros de uma tal Missão Pelicano. Depois da minha fala no sábado de manhã, uma vermelhinha - que chamava todo mundo de "santo" [inclusive a mim!] - me ofereceu um bombom de castanha, comentou sobre o que eu acabara de falar, perguntou o significado de algumas palavras latinas e falou da sua vida, de como deixou a família no Estado de São Paulo para viver em comunidade, servindo os pobres, aqui no interior do Paraná. E isso tudo me deixou muito esperançoso.

Jovens da comunidade Missão Pelicano.

Saí de Farol animado, com a esperança de que esses jovens serão faróis para a realidade escura que enfrentam hoje. Eu creio na força de mudança da juventude. E a eterna Helena Kolody também:

JOVEM
Suporta o peso do mundo.
E resiste.

Protesta na praça.
Contesta.
Explode em aplausos.

Escreve recados
nos muros do tempo.
E assina.

Compete
No jogo incerto da vida.

Existe.

Força juventude!

domingo, 20 de julho de 2008

Puta que pariu! Morreu Dercy Gonçalves

Morreu ontem, aos 101 anos [ou 102, como sustentava], a mãe da comédia brasileira, a dama da espontaneidade e do bom humor. E eu jurava que a Dercy ainda ia me enterrar. Que porra!

Pra recordar, destaco dois vídeos que publiquei recentemente no YouTube com participações da atriz na TV:

Nada Além da Verdade [SBT]


Inclusão [TV Câmara]

Surata Vespertina

Em Nome de Allah
o Clemente, o Misericordioso
é que eu decido rogar
do meu jeito teimoso

Pelas contas do masbaha,
peço ao Deus do Islã
que renove a minha garra
na chegada da manhã.

Dai-me força e coragem
E me faça caminhar.
E se as areias, em miragem,
Desejarem me enganar,
Concedei-me malandragem
Ó indulgente Allah!

Que sejam minhas preces
Audíveis ao teu tímpano
Se é que te compadeces
Deste teu filho do Líbano.

Pelas páginas do Alcorão
E daquilo que lá contem
Escutai minha oração
Agora e sempre. Amém!

sábado, 19 de julho de 2008

Viu? Avise!





Lucas desapareceu no dia 21 de junho de 2008, quando saiu para brincar na rua com o irmão, Caio Pereira, 8, no Jardim Beatriz, periferia de São Carlos [232 km da capital paulista]. Os dois meninos e a mãe, Marcelene Érika Pereira, se mudaram no começo do mês para a cidade.

As informações sobre o menino devem ser passadas para a DIG de São Carlos pelo telefone [016] 3374-1596

sexta-feira, 18 de julho de 2008

PoMSN [Autopoema]

Sou neto de Toufic Sati
que me deu o sangue árabe
e a coragem do combate.

Sou descentente primeiro
da incansável professora
e do laborioso pedreiro.

Sou Fábio Alexandro
e Sexugi por sobrenome,
ao qual peço que se some
adjetivos de fé, de luta:
Brasileiro, Peabiruta.

Se as linhas que formato
te fizerem algo bom,
por favor, entre em contato:

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Morada

Minha casa é um recanto do mundo
a doze passos do coração.
É horta fértil, jardim fecundo,
pelos Campos do Mourão.


Minha casa é colo e cafuné,
é cheiro de mate e pão caseiro,
é força e vida, vigor e fé
que canta o sino de Engenheiro.


Minha casa é abraço apertado
onde a Gralha Azul fez ninho.
É beijo tímido, apaixonado
nos cafezais de Sertãozinho.


Minha casa é floresta que se avista
da janela velha rindo à toa.
É semente nova que o altruísta
acomoda e rega em terra boa.


Minha casa é pinheiro, é cipestre
que penumbra, em trilha oportuna,
os tapetes do ipê roxo, flor silvestre
nas calçadas de Araruna.


Minha casa tem gosto de Carneiro ao Vinho,
Sabor sagrado, segredo sangrado no sul.
É terra rubra que pinta o pé pelo caminho,
é sossego, saudade e sol. É Peabiru.



quarta-feira, 16 de julho de 2008

Amor-Metade

Não há amor impossível.
Há sim somente amor
ou seja lá o que for
que faz o homem mais sensível

Não existe amor platônico.
Há sim amor covarde
que encoberto, sem alarde,
deixa o bem para mais tarde.

Também não há sinceridade
em quem se faz indiferente.
Pois se esconde o que sente,
faz do amor, amor-metade.

Como folha solta ao vento,
assim a vida nos empurra.
E é das coisas a mais burra
dissimular o sentimento.

Porém se a ousadia
beija o coração humano,
torna o fardo leviano
e mais pesado, todavia.

Mais inculta e menos bela

A língua camoniana mais uma vez vai ser mudada pelo acordo ortográfico. Trata-se duma mudança besta, desnecessária, completamente dispensável tanto do ponto de vista político e mais ainda do cultural e lingüístico. Digo isso porque não é concebível que, diante da fartura de discussões acadêmicas sobre a natureza da língua e da repercussão que essas mesmas discussões costumam ganhar, aceite-se tão passivamente que meia dúzia de políticos venham nos dizer como devemos escrever nossa própria língua-mãe, sob o pretexto de dar maior visibilidade à língua no mundo moderno [como se o mundo e mesmo os próprios países afetados pelo acordo estivessem lá interessados na unificação das grafias].

A língua é em si mesma. Tem vida própria. E como tal, deveria ser soberana, imune às imposições das frescuras dos políticos. A ortografia e as estruturas gramaticais deveriam acompanhar o curso natural da vida de uma língua e não podem estar sujeitas ao autoritarismo de pseudolingüistas bajuladores do poder de Brasília/Lisboa [porque só pela puxação-de-saco é que conseguem estuprar nossas gramáticas, impondo à força, artificialmente, aquilo que pela via das idéias são incapazes de fazer].

Insisto: a língua é em si mesma. E, sociolingüisticamente, é bobagem pensar que brasileiros, portugueses, moçambicanos, angolanos, guineenses, timorenses e são-tomenses, que têm culturas completamente diversas, vão falar de modo uniforme, como pretendem os caras do poder. Não farão isso, porque o que difere esses gentílicos em relação à língua comum vai além da grafia: está na gramática natural, nas expressões usadas que são únicas para cada um deles. E não adianta usar sebentas pirosas para defender essas injunções, dado que o tal acordo, pra mim, vale menos que uma chávena de bica numa locanda de bairro de lata ou uma bacorada que um tulho qualquer conta. [Não entendeu? Quem sabe o acordo ortográfico ajude você! Já que é exatamente isso que pretende o tal tradado.] Pois bem, se a gramática não suporta todos os fenômenos lingüísticos, tampouco a legislação dá conta das diversidades gramaticais profundamente enraizadas nos países cujo português é a língua-pátria.

Esse tratado político – estrita e unicamente político – me causa freqüente enjôo [com trema e circunflexo, claro!] porque todos os países envolvidos, até mesmo Portugal, têm assuntos mais urgentes para tratar. E, a despeito do acordo, vou continuar rabiscando como aprendi. "Graphar é a vingança", como diz bem o poeta João Filho.

Uma coisa é certa: o acordo ortográfico vai deixar o famoso poema de Olavo Bilac desatualizado.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Xícara


JJ 3054

— Desacelera, desacelera!
— Não dá! Não dá!
— Ai meu Deus!
— Pô, meu. Varou...
— Vira, vira, vira! Vira, vira, vira... [Barulho do choque]

O diálogo desesperado acima, registrado na caixa-preta do Airbus 320 da TAM, foi levado ao ar pelo Jornal da Record de ontem, que mostrou ainda que o descumprimento de uma norma foi determinante nesse acidente aéreo que deixou 199 mortos [entre os quais, a peabiruense Zenilda Cunha].


Zenilda, com a família. Estavam todos no avião da TAM.

A reportagem exibiu também as pilhas do inquérito policial que já têm mais de 13 mil páginas. Nelas, consta o depoimento do tenente Gilberto Schitiini que, na época, era gerente da Agência Nacional de Aviação Civil. O tenente faz referência a uma determinação acordada numa reunião em 13 de dezembro de 2006, entre a Gol, a TAM, a Bra e a ANAC, proibindo o pouso de aeronaves com reverso pinado [travado] em pista molhada no aeroporto de Congonhas. Se essa norma tivesse sido levada em consideração, certamente a maior tragédia da aviação brasileira teria sido evitada.

Eu estava na Itália quando o acidente aconteceu, participando dum congresso. Além da tristeza que certamente arrebatou o Brasil inteiro, senti uma vontade tremenda de voltar para casa. [E ali, bem longe da Pátria, eu entendi e senti pela primeira vez o que talvez signifique Pátria.]

Voltei dois dias depois, conforme previsto.



Desembarcando no Aeroporto do Galeão, no Rio, me vi no meio dum caos duzinferno: tive que encontrar, no meio daquele vuco-vuco insuportável, a agência da TAM para, finalmente, embarcar pra São Paulo. Aconteceram algumas coisas engraçadas que prefiro não escrever aqui para não perder o foco do assunto principal. Mas, caso queiram saber, me adicionem no MSN [sexugi@hotmail.com].

Pois bem, cheguei a São Paulo ainda à noite, onde era visível o abatimento das pessoas. Era como se todo mundo tivesse perdido um familiar naquela maldita aeronave.

Eu estava de volta ao Brasil, de volta à minha gente, à minha língua [com suas crases facultativas antes de pronomes possessivos]. Mas também de volta ao Brasil da impunidade, do conformismo, do descaso, do jeitinho.

Um ano depois, aquilo que não precisava mudar, mudou: o acento agudo nos ditongos abertos e nas proparoxítonas precedidas de ditongo; o circunflexo em palavras com hiato; a maioria dos hifens; o acento diferencial; e o trema [até meu querido trema] já estão todos no Airbus 320 do acordo ortográfico, prontos pra lançar vôo.

Enquanto isso, na Sala da Justiça [ou da Injustiça], a fome, a miséria, o desemprego, a impunidade, a corrupção [a putaria escancarada da corrupção], o analfabetismo [das letras e da política], a desordem, a estupidez e o caos continuam mais vivos do que nunca, bem seguros, em terra firme. A morte, paradoxalmente, também continua viva.

Vive. Mas a esperança também.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O rosto de Deus está feio


Na Festa do Carneiro no Buraco em Campo Mourão, uma adolescente de 15 anos foi assassinada com um tiro na cabeça. No último sábado, em Peabiru, um jovem foi morto com vários tiros em plena luz do dia. Seu assassino é jovem também. Poucas horas depois em Campo Mourão, um rapaz de 21 anos foi assassinado a pedradas.

Diz um cantor católico que Deus tem o mesmo rosto da juventude.

A cara de Deus, então, está desfigurada.
Ele está feio!

Altino Pipoqueiro

Lá vem Seu Altino
Trazendo pamonha
Pode pegar, ô menino!
Não tenha vergonha!

Me vê duas, Seu Altino
E dê o troco de paçoca
E assim segue seu destino
O vendedor de pipoca



Saudades de Chiara



"Nada do que é feito por amor é pequeno."
[Chiara Lubich]

domingo, 13 de julho de 2008

Balada do Poeta Biruta

Se insano é Olavo dos Guimarães Bilac
Com seu "Delírio", sua "Via Láctea"
Sensatez de que serve? Mate-a!
Havendo, pois, quem me ataque
Por dizer que falta um parafuso
Em Fernando Pessoa de Portugal
Ou por chamar Camões de anormal
Imprudente que sou, escuso.

Tem senso Drummond de Andrade
Dizer que há gente com cheiro de cafuné?
E agora, José?
Agora é loucura, genialidade!

Poesia é o hospício d’alma
Hospício que não sana, vicia
Il cui Dante portò dal cielo della pazzia
Dal cielo che mi rubba la calma

Até Kolody, minha favorita
Na brevidade dos haicais
Mostra que não são normais
Os namorados da escrita

E se divago em tom introspecto
Rabiscando sob tensão metalingüista
É que ainda há quem insista
não ser louca Clarice Lispector

Palavra inútil e filadaputa
Derramo agora em meu teclado
Poema sem jeito, inadequado
Inquieto, peabiruta

Sou louco, sim, sem exceto
Como louco é Miguel Sanches Neto
E se também o é Alex Dancini
Haverá quem me recrimine?



___
P.S. Escrevi esse poema pensando numa afirmação do poeta ararunense Alex Dancini [sobrenome cuja pronúncia eu pensava que fosse "Dantchini"] que, comentando a postagem anterior a essa, disse: "Escrever aquilo que está na mente é o início da corroboração de que se é um pouco louco".

Depois duma breve discussão comigo mesmo, concordei. Sou doido, biruta. Reconheço.

sábado, 12 de julho de 2008

Fila do mercado

Encontrei de manhã minha ex-professora na fila do supermercado. Ainda bem, porque fila de mercado no sábado é um pé no saco, um verdadeiro exercício de paciência/penitência. Relembramos as aulas, as minhas teimosias, os teatros cômicos, os projetos e outros assuntos do gênero, com boas gargalhadas. Por fim, elogiou meus rabiscos neste espaço e me fez uma pergunta simples mas que me deixou encucado:

— Por que você escreve?

Ainda bem que era a minha vez de passar pelo caixa, e pude escapar da resposta. Isso é lá pergunta que se faça, profª Marilene? Hehehe.... Escapei da resposta, não do questionamento. Mas, como assim, "por que eu escrevo"? Tenho que ter motivo?

Escrevo porque gosto de escrever. Melhor, de rabiscar. Rabisco, rabisco, finjo que escrevo. É só fingimento. Mas, fico satisfeito.

Rabisco não "porque", mas como quem escreve e joga no mar mensagens dentro de garrafas. Não existe um porquê. É assim mesmo, à toa. O que existe sim é uma expectativa – boba, talvez – de que algum curioso com espírito sublime [porque só os curiosos com espírito sublime valorizam essas que a maioria chama de coisas de quem não tem o que fazer] abra essas garrafas, leia meus rascunhos, e pense. Expectativa, não porquês.

Só isso.

Mens sana

Você tem uma mente poluída? Ficou em dúvida? Então assista ao vídeo com desenhos infantis do cartunista Mauricio Ricardo e responda.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Versos para uma flor despedaçada


Passano i giorni sotto il cielo di Peabiru
E rimango ancora io qua giù
Passano, ma non sono capaci mai
Di far passare la mancanza che fai
Dentro me ancora di più

Quando il piazzale attravesso
Che oramai non è lo stesso
Penso di sentire tuo sorriso
Bello ed unico sul tuo viso
Di cui mi ricordo spesso

Vita, gioia, forza e coraggio
Van via subito con i venti di maggio
Ma giacché il destino, o fiore spezzato,
Ha voluto coglierti per lasciarl’ ornato
Non posso che farti un ommaggio

Ommaggio in italiano, lingua della malinconia
Sentimento che contrasta con la tua allegria
Perché la nuvola fredda che ha lasciato soli
I tuoi amici, cara Tatiana Maioli
Soffia ancor oggi nostalgia...


Grades na catedral

Quer dizer então que querem pôr grades e a polícia para afastar os mendigos dos arredores da catedral de Campo Mourão? Já tá podendo isso agora? Não foi a Igreja na América Latina que assumiu em Puebla uma tal opção preferencial pelos pobres; e, mais recentemente, em Aparecida, exigiu fidelidade a essa mesma opção? Como é que alguém que comunga nessa mesma Igreja e que vive numa das regiões mais pobres do Estado [conforme o próprio Dom Mauro atentou tempos atrás] pode agora sugerir um "apartheid" desses na Sé da diocese? Não consigo ver lógica nenhuma nisso.

Os carros do estacionamento estão sendo riscados? Contratem um guarda, oras! Afinal, católico que paga impostos também paga dízimos. Os menores e os pedintes causam problemas à catedral? Pois então que a catedral faça um trabalho social que os contemple, que lhes dê oportunidades, que os evangelize, que faça valer a caridade.

Do contrário, rasguemos os documentos do episcopado latino-americano! Do contrário, rasguemos o próprio Evangelho! Porque separar a Igreja dos pobres é separá-la de Cristo. Numquid Christus Iesus cum pauperibus non ambulabat?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Oração


Como Helena Kolody,
Quero, Senhor, lhe pedir,
Que eu também seja bom,
E minha vida seja um dom.
E se eu não souber deixar claro
O céu de quem vive sem amparo,
Dê-me um coração atento
Ao alheio sofrimento.
E não permita, por favor,
Que eu recuse dar amor
A quem padece no lamento.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Primeiro de maio de 1980




Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola...

Nos versos de Renato Russo, um retrato da juventude dos Anos 80/90, da minha geração.

Uma geração superficial? Talvez. Porém, há uma tremenda profundidade no nosso superficialismo. Sabemos tudo mais ou menos, mas agimos com a convicção plena de que sabemos tanto ou muito mais que os outros. Minha geração porta um oceano de contradições, uma enciclopédia de perguntas com trocentos volumes. Perguntas que ninguém tem saco ou coragem de tentar responder. "Você espera respostas que eu não tenho. Mas, não vou brigar por causa disso..." E, mesmo quando os "respondendores" arriscam rascunhar alguma resposta diferente daquelas que formularam antes, mesmo assim, a gente não aceita.

A minha geração é aquela que busca novos valores. Ou melhor, busca uma forma menos hipócrita de viver os mesmos valores eternos. Valores que incomodam e que não nos deixam estáticos, mudos. [Se bem que, no fundo, bem no fundo mesmo, somos tão incoerentes quanto os respondedores, mas com a coragem – às vezes, ingênua – de protestar, de encarar quem pode mais, de falar alto quando preciso, de assinar contestações e rir de tudo depois, com uma Skol bem gelada, mas sem espuma].

Minha geração, embora não pareça, é moralista e exige coerência de comportamento nos respondendores, quando percebe algum sinal de fingimento. Agride, denuncia, berra e sai de boa depois, com a tranqüilidade própria dos jovens da minha geração, ouvindo Legião bem alto no MP4 paraguaio. "E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade. E há tempos são os jovens que adoecem..."

A minha juventude relativiza absolutismos e absolutiza o relativismo. Mas, mesmo assim, demonstra uma inquietação espiritual, de tal forma grande, que necessita demonstrar carinho, admiração e até uma certa veneração por pessoas capazes de viver [mesmo que de modo absolutista] paz de espírito e de transparecê-la aos outros. "Quem me dera, ao menos uma vez, entender como só Deus ao mesmo tempo é três. Esse mesmo Deus foi morto por vocês, é só maldade então deixar um Deus tão triste..." É, em suma, a geração que pede a Deus que Deus exista. Mas que dorme no meio da oração.

Minha geração é aquela que escreve à meia-noite um texto sobre a própria geração, lê de relance, toma um copo de Nescau gelado pensando se vale a pena publicá-lo, vai ao banheiro, mija [pensando em novos parágrafos e assuntos não abordados], volta, relê, diz: "que se foda!" e publica mesmo assim e com o refrão de uma música do Legião pra ficar bonitinho.

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver!
O mundo anda tão complicado,
que hoje eu quero fazer tudo por você...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ao piá fazedor de balaio

Ô, menino barrigudo!
Que que tem nessa barriga?
Tenho fome, muita fome
Fome muita, fome antiga

Ei, menino barrigudo!
Tu, que fazes na tapera?
Olho o azul e digo ao verde
Esperança, aqui, já era.

Diz de novo, barrigudo,
Que tens tu nessa barriga?
Como disse: muita fome
E dos homens, a intriga.

Ô, piá barrigudo
Cria dos Peabirus
Diga lá: como te chamas?
O meu nome é Jesus.

Ô, bugrinho barrigudo,
Tu, que tens nessa barriga?
Outra vez? Olha que falo!
Você quer mesmo que eu diga?

Mea culpa, massima culpa
Ao menino ninguém liga
Só a fome cuida dele
E faz dele só barriga.

Afrodisíaco?



Nem tanto...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Saravá, amendoim!

Acho engraçado o choque cultural entre brasileiros de regiões diferentes. Conversando ontem com um amigo teólogo baiano, Jeremias Santiago, que conclui um período de estágio em Peabiru, fiquei sabendo que na terra dele amendoim se come cozido e com sal e que isso se vende em bares, padarias, e que lhe faz uma falta danada... Disse que no dia de São João, longe da Bahia, deu-lhe uma tremenda fissura: percorreu Peabiru inteira procurando um lugar onde se vendesse amendoim cozido. Coitado!

Trata-se, evidentemente, de apenas uma das particularidades da Bahia. A culinária baiana tem algo de especial. Talvez, porque seja de certa forma divinizada, sacralizada. Acho interessante, por exemplo, como descendentes de africanos associam o alimento às divindades do candomblé. Cada orixá tem um prato específico, uma comida preferida:

EXU – Farofa, pipoca, feijão, inhame, mel, gim, azeite de dendê e pinga [padê];
OGUM – Feijoada, xinxim, acarajé e milho branco [macundê];
OXALÁ – Arroz socado no pilão, mel, milho branco sem tempero;
OXÓSSI – Bolo de milho branco ou amarelo [acaçá], coco, peixe de escamas, feijão e até Karo [uia!];
OSSAIM – Feijoada, mel e coco;
OXUMARÉ - Amendoim cozido [dá-lhe, Jeremias!], batata doce e mel;
OXUM – Feijão-fradinho, ovo, mel e milho branco;
XANGÔ – Quiabo com camarão seco [ajobô], arroz, feijão e farofa;
IANSÃ – Acarajé;
OBÁ - Ajobô, arroz, feijão e farofa;
NANÃ – Folha de mostarda com arroz;
IEMANJÁ - Arroz com mel e manjar branco.


Agora, se um dia eu me tornar um orixá [já que perdi as esperanças de ser canonizado, fico satisfeito com o sincretismo], tenham a bondade de acrescentar àquela lista:

SEXUGI [até parece mesmo nome de orixá, hehehe...] – Carneiro ao vinho, quibe com bastante hortelã e cominho, paçoca, sopa de feijão, pizza de gorgonzola, vinho tinto, churrasco, Doritos Queijo Nacho, chocolate meio-amargo, pinhão, tabule, leite condensado cozido, gnocchi, pão de queijo e café forte. Oferendas de peixe ou frutos do mar terão sido afronta, heresia gravíssima. Do litoral, só mesmo o Barreado de Paranaguá.

Mas, enquanto isso não acontece, vou experimentar o tal amendoim cozido. Será que presta? Oxalá!

Juventude sem escola nem futuro

Nossos adolescentes têm futuro? Não, não tem. E a resposta continuará negativa enquanto não houver políticas públicas sérias para a juventude. Os últimos dados do IPEA não me deixam mentir.

Mas, deixemos que o próprio jovem fale por si mesmo das suas expectativas para o futuro. No áudio a seguir, um menor mourãoense, detido com arma de brinquedo, fala da própria vida e do que espera para ela.

domingo, 6 de julho de 2008

Domingo

Pra vizinha, no banco da rua,
Fala a comadre da vida
da moça que pegou barriga
do guri entupido de lombriga
Porco duma figa!

Entre goles de café, insinua
que um filho da vizinha é veado
que o caçula, um bêbado drogado
Pega até mulher do soldado
Coitado!

"Traçou até a benzedeira", continua
"a filha da Dona Francisca
assanhada que nem pisca-pisca
Nunca passou duma bela bisca."
Arrisca.

"Por hoje basta!", pontua
a amiga que ouviu todo futrico.
"Cala a boca, fecha o bico
Se te pegam com a boca no penico
Que mico!"

Com mais gente em meia-lua
Falam do prêmio que uma ganhou no bingo
do curso que a outra faz pra falar gringo
Até que na garrafa não sobre um pingo
Domingo!

Mãe, não chore!

Marrom? Preto? Não! Não são as cores que dão alma à vestimenta simples de Santa Paula Elisabete Cerioli, a "Mãe dos Pobres". São os retalhos que tornam seu hábito religioso vivo. Retalhos, não de tecido, mas de experiências de vida de uma jovem provada por Deus desde a mais tenra idade; fragmentos de emoções intensas de uma esposa fiel e de uma mãe ferida...

O colo aconchegante dos pais em Soncino; o amor estranho e doentio do marido Gaetano; a perda dos filhos; a amizade e a doçura de Carlinhos; as tribulações em Comonte di Seriate; a dor aguda pela morte do último filho; a solidão; a inquietude... Cenas que não são mais que retalhos, e que, harmoniosamente, vão se dispondo e se entrelaçando de tal forma que, por si só, constituem um vestido de uma mãe bela e santa, costurado pelas mãos de Deus.

Mais que um vestido: um hábito... Hábito de Mãe!

Foto velha


Coisas do piá da foto
Inda vivem cá no peito
Num canto breu, estreito
Que eu mesmo saboto

Mas quando por teimosia
Volto lá onde eu brincava
Emudece-me a palavra
De saudade, de alegria...

Nossos segredos guardados, enfim revelados nus sob o sol


O Guardião do Fogo

Um espetáculo! E no sentido primaz da palavra. Pelo menos foi essa a sensação que tive ontem assistindo ao Guardião do Fogo [representação teatral ao ar livre apresentada na Festa Nacional do Carneiro no Buraco em Campo Mourão, PR]

Cenas comoventes representadas com tanta vida, com tanto encanto, que era quase impossível não se comover: os bandeirantes e o extermínio dos índios do Peabiru, a chegada das primeiras famílias a Campo Mourão, as rezas no antigo cruzeiro, a colheita do café, a Folia de Reis, as festas de São João, a linda homenagem aos pioneiros... Um verdadeiro espetáculo!

Ao diretor Francisco Pinheiro e a toda a equipe o meu aplauso emocionado!

sábado, 5 de julho de 2008

Minha terra tem palmeiras...

E quem duvida, que dê uma voltinha pelo centro de Peabiru.

O fato é que a praça está sendo revitalizada e as árvores antigas foram substituídas.

Tenho pra mim que o prefeito Eleutério Galdino de Andrade, que administrou Peabiru de 1956 a 1960 e que dá nome à praça, só pode ter sido palmeirense. Digo isso porque o jardim central da cidade, volta e meia, faz alusão ao time alviverde: em 2003, o obelisco foi pintado de verde!


A desculpa era que a cor do Hulck predominava na bandeira. Agora, cinco anos depois, e para a alegria dos corinthianos [hehehe...], as árvores da praça foram retiradas para dar lugar a nada menos que várias palmeiras.

Minha terra tem palmeiras. Só faltam os sabiás...

Encontrado o corpo do Padre das Bexigas

Até entendo as piadinhas que a galera faz sobre o que aconteceu com ele. Afinal, não é todo dia que a gente vê por aí um sacerdote católico voando amarrado a balões de festinha infantil. Mais bizarro, quase impossível.

O que eu não consigo entender é que os colegas dele, os padres, riam também. Não entendo porque o que o Adelir queria com aquela cena inusitada era divulgar o trabalho que vinha fazendo na Pastoral Rodoviária, prestando um serviço sério aos caminhoneiros e familiares daquela região portuária do Estado.

Conforme disse Dom Alves dos Santos, bispo de Paranaguá, o Padre das Bexigas "era um homem muito dedicado, com um grande espírito de caridade". Características que os padres que agora debocham dele não têm. A dedicação e a caridade deles voaram faz tempo e dificilmente serão encontradas.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O paraíso está perto


Amarre a meia e seja feliz!

Tá endividado? A mulher lhe abandonou? Não consegue sair do vermelho? Problema de chifre? Andando a pé? Seus problemas acabaram! Chegou o novo, o único, o revolucionário NÓ NA MEIA! Basta amarrar uma meia, esvaziar o bolso e... pronto! Resultado garantido!



Pior que aceitar a ignorância religiosa como "religiosidade popular" é inventar novas superstições para explorar ainda mais essa mesma ignorância ou o desespero de muita gente para lucrar. Vale tudo: nó na meia, sabonete com extrato de arruda, sessão forte do descarrego, banho dos três elementos, rosa vermelha contra mal-olhado... Tudo mesmo que tenha a ver com a propagação de uma fé milagreira, alienante, carrinho-de-supermercado e imediatista.

Talvez a falta de formação [religiosa, educacional, humana] e a pobreza é que levam essa gente a submeter-se a coisas tão absurdas que beira o hilário. E talvez o medo de perder a clientela – já que a religião hoje em dia virou mercadoria em promoção exposta em prateleiras muito bem divididas – é que faz com que se peque por omissão diante da emburrecimento alheio.

Subir de joelhos escadarias enormes, andar quilômetros em romaria e outros tipos de promessas são válidas? Claro, mas não tanto quanto uma mudança definitiva de comportamento em relação ao outro e a si mesmo. Rezar mil vezes a Ave-Maria[!!!], fazer novenas, cercos de não-se-o-quê e outras práticas piedosas têm valor, lógico; todavia, valor maior possui a oração diária, perseverante, feita espontaneamente a cada dia.

Mas, porque os poderosos da fé aplaudem e prestigiam mais a ignorância religiosa do que a fé consciente, consistente? Porque não há nada mais anestésico do que a religiosidade, que não incomoda porque é passiva: não reclama, não contesta, não questiona, "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...". É a religião do "amém", do "Deus quis assim".

Deus quis assim, uma ova! O que Deus quer é que tomemos consciência de que somos filhos e que, portanto, temos direitos num Reino que tem que começar aqui, hoje. O Criador quer fome, miséria, mortes, violência ou amor, justiça, vida?

O próprio Deus, feito homem, nasceu fora do conforto de uma casa, num coxo de bois, teve que fugir para o deserto, ainda criança, para fugir da perseguição de Herodes e rodeou-se de pobres e semi-analfabetos e fez deles seus apóstolos. Ele se conformou com a religiosidade deles? Não! Com uma paciência estratégica e pedagógica, deu-lhes formação até seu último suspiro.

Teve dó dos doentes, curou-os, conversou com eles, quebrou tabus, tocou o leproso e ensinou-lhe a verdade. Apelidou os injustiçados, os perseguidos e os injuriados de "bem-aventurados". Ensinou a pedir o pão de cada dia para que ninguém que chame Deus de Pai seja forçado a um jejum obrigatório, causa da exploração. Entrava na lama sem se sujar, porque, mesmo descendo para falar com a prostituta não se prostituía; descia, para que ela subisse com Ele. Esteve com o aleijado, com o surdo, com a menina morta, com os cegos, com os cobradores de impostos, com os romanos, com os samaritanos, com os ladrões e os pequenos e conversava com eles. No sábado, defendeu seus amigos que, com fome, comiam milho. Para Ele, não tinha dia certo para servir as pessoas, todas elas. Rompeu paradigmas. Chegou ao cúmulo de propor que, quando alguém desse uma festa, que convidasse não a elite, mas os pobres, os coxos, os esfarrapados, os mendigos, já que não há troféu maior que fazer o bem a quem não pode retribuir.

Falava o que bem entendia, sem se preocupar em selecionar as palavras mais leves, menos chocantes, para que a verdade fosse dita sem frescuras, sem meios termos. Não tinha papas na língua, afinal, não podia perder tempo: tinha só três anos para deixar uma mensagem definitiva, perpétua, imutável, nua e crua. Sem fazer média, sem puxar o saco, sem jeitinho brasileiro, fez propostas simples e diretas a Pedro, Mateus, Zaqueu, ao Jovem (?) Rico, à Cananéia, aos fariseus.

É preto no branco, sem lero-lero: "Dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".

Crucificado, catequizou o bandido condenado; ressuscitado, foi aparecer por primeiro a uma ex-prostituta.

O Deus-Carpinteiro promoveu o excluído, o marginalizado. Educou-os.

Mas, já que o comodismo nos amarra, nos impede de fazer o mesmo, continuemos com nossos três nós: um na meia, um na garganta e outro na consciência.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Campanha eleitoral em Campo Mourão será de alto nível. Sei...

De acordo com manchete publicada hoje no Portal da Rural, a "ACICAM pede que campanha eleitoral tenha alto nível. Propostas e planos para a cidade, no lugar de ataques pessoais".

Será que o prefeito Nelson Tureck e o vereador Sidnei Jardim leram a nota?





Tomara que sim!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Escola ponto com ponto bê erre

Dominar as funções básicas do computador, pôr pra funcionar um aparelho de DVD, ajustar o projetor, instalar um microfone e controlar o som, ligar um CD player ou mesmo um televisor: coisas simples, mas que ainda são encaradas como um bicho-de-sete-cabeças por muitos professores que, por medo do novo [não tão novo assim] deixam de lado a tecnologia e abusam à exaustão da relação quadro-giz.

Os alunos sentem necessidade dessas inovações que podem marcar a aprendizagem para sempre. Nunca me esqueço, por exemplo, de quando a minha alfabetizadora, Dona Carmem Flores Bassi, levou para nossa turma uma máquina de escrever para que datilografássemos nela o próprio nome. Aquilo foi incrível, quase mágico!

Pois bem, se laaaaá em 1987 a piazada já se empolgava com algo tão banal [que hoje até virou peça de museu!], quanto mais os alunos de hoje, em plena era da informática e da telecomunicação!

Nesse ano letivo de 2008, a escola onde eu trabalho conseguiu – depois de muito esforço e insistência – inaugurar um laboratório de inclusão digital, que oferece informática básica tanto para os alunos, quanto para os educadores da instituição. Como sou eu o professor-monitor, pude comprovar o que eu já suspeitava antes: crianças de 5 a 6 anos estão deixando muitos professores no chinelo. Com segurança e autonomia, conseguem ligar o PC, manusear o mouse e o teclado [mesmo sem saberem ainda todo o alfabeto] satisfatoriamente, sabem abrir, explorar e fechar diversos softwares.

Isso demonstra o quão distante os educadores ainda estão da realidade e dos anseios dos alunos e aponta para a urgente necessidade de troca de experiências pedagógicas/tecnológicas entre eles, não apenas na Educação Intantil e no Ensino Fundamental. Por outro lado, isso confirma que o papel do professor, apesar da tecnologia, sempre será insubstituível. Fundamental.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ao mestre, com carinho


Para a primeira edição da Revista Família São José - um informativo escolar produzido pelo instituto onde eu trabalho em Peabiru - tive a felicidade de entrevistar Dona Mercedes, uma educadora aposentada, dona de uma simpatia única. O resultado da conversa está no texto a seguir.

Passos lentos pelos corredores da escola. Lá vem Dona Mercedes, ou Vó Mercedes, como ainda é carinhosamente chamada pelos alunos da Escola São José a professora que, pela simpatia, sabedoria e simplicidade, tornou-se uma espécie de Dona Benta da escola. Depois de despedir-se do netinho, que acompanha diariamante até a fila da Educação Infantil e de um bate-papo rápido com a secretária Sueli, ela segue para uma entrevista informal, em que conta alguns de seus momentos importantes como educadora.

Mercedes Bassi Alves nasceu em 4 de agosto de 1933, na cidade de Coroados no interior do Estado de São Paulo. Viúva e mãe de duas filhas – uma das quais, também professora – ela se lembra que quando menina nem pensava que seria educadora. Seu sonho? Ser modista, uma vez que tinha muita habilidade para corte e costura. Todavia, por sugestão do pai, acabou abraçando o magistério. Dona Mercedes faz questão de mencionar a importância que o pai dava à figura do professor e de como, em apenas um mês, aprendeu em casa as 23 lições da cartilha, com a ajuda da mãe. Embora não tivesse freqüentado escolas, mantinha-se informado, instruindo-se com a leitura de jornais ou mesmo de clássicos da literatura nacional. Tudo isso cativou Dona Mercedes e fez com que, logo depois de sua chegada a Peabiru, na década de 50, ela assumisse uma pequena turma na comunidade São Roque, permanecendo ali por dois anos.

Depois dessa primeira experiência em sala de aula, passou a lecionar na Escola de Aplicação Professor Nuno Souza e Silva – onde atualmente encontra-se a Escola Municipal Paulo Freire – auxiliando na regência do Pré-Escolar e também colaborando com as alunas da Escola Normal Colegial Olavo Bilac a realizarem ali suas aulas práticas. Foi um tempo importante que, segundo ela, ajudou-lhe muito se aprimorar na arte de educar.

Ao se lembrar da época em que atuou na Escola Estadual Emílio de Menezes, um sorriso. Vêm-lhe à memória ocasiões cômicas, como quando ela e a irmã, Dona Diolina, tiveram que apartar uma briga de mães na porta de sua classe; ou ainda quando se surpreendeu com a agilidade dos alunos, ao pedir-lhes uma simples frase e estes lhe entregarem prontamente uma verdadeira redação. “A gente às vezes subestima a capacidade das crianças...”, confessa, rindo copiosamente. Daquela época, cita algumas professoras, mas faz questão de elogiar eloqüentemente uma colega que, segundo ela, foi-lhe como uma autêntica mestra: Dona Rosa Delconte Ferreira, com quem aprendeu alguns truques sobre como favorecer a aprendizagem dos alunos.

Graças a essas dicas, ela pôde encarar, não sem esforço, uma turma com problemas de indisciplina na Escola Estadual 14 de Dezembro, que lhe serviu para aprender o que agora ela ensina com a serenidade de quem sabe o que fala: “Ser professora exige muito. Muito mesmo”. E, enquanto menciona saudosamente colegas daquele estabelecimento, subitamente pára de falar e olha para o nada, como quem lembra de algo relevante que ainda não mencionara... É a lembrança de ex-alunos que lhe vem à tona. Dona Mercedes fala orgulhosa que professores, médicos, políticos, advogados e outros profissionais bem-sucedidos já estiveram numa carteira escolar de uma de suas turmas. “Nossa profissão é muito importante, porque todas as outras dependem dela”, comenta.

Ela conta que, já aposentada, foi convidada pela professora Judith Simonelli a trabalhar na Escola São José. Ali, Dona Mercedes poderia realizar seu primeiro sonho: ser costureira. Ela aceitou. E, com talento inato, confeccionou becas, cortinas, fantasias e tudo mais quanto fosse necessário. “Fui muito bem acolhida por todos: professores, funcionários, padres, alunos... Encontrar os professores e conversar com eles na hora do café era como uma terapia para mim. Todos sempre me respeitavam e me tratavam com muito carinho. As crianças até me pediam a bênção”, suspira. Ela lembra que quando, por motivos de saúde, teve que sair da escola, onde permanecera por mais de uma década, ficou muito abatida. “Chorei por quase três meses. Não agüentava ficar longe da minha escola...” recorda, visivelmente emocionada.

Depois de um momento de pausa, outro sorriso. “Tenho que fazer o almoço”, lembra. E assim, ela encerra o bate-papo, prometendo voltar no dia seguinte para uma foto, usando o colar que ganhara da sobrinha. Na porta da biblioteca, onde acontecera a conversa, encontra-se com uma funcionária: um abraço demorado. Já na saída, um menino pede-lhe a bênção.

– Deus te abençoe, meu filho! Deus te abençoe!

Entre a cruz e a foice


Falar sobre as idéias de Karl Marx e pretender confrontá-las com a doutrina de Cristo é ousar entrar num campo polêmico, controverso, mas, sempre atual e instigante. Antes, porém, de me atrever a isso, acho importante estabelecer distinções claras entre a sociedade civil – expressão duma estrutura político-organizacional humana –, da essência da Igreja, enquanto expressão maior ou mais manifesta do cristianismo, ou seja, dum credo religioso. Enquanto a sociedade, sujeita como é às ondas da evolução histórica e social, tende a transformar-se continuamente; a Igreja, tendo em vista sua própria missão, tende ao contrário a permanecer imutável no espaço temporal.

Trata-se dum contraste evidente: ao passo que sociedade civil se vê instigada a viver numa dimensão meramente terrena, contingente, ou seja, histórica; a instituição eclesiástica pode, além das aparências, aludir à dimensão estática do eterno. Eis a razão pela qual a Igreja atravessa os séculos vivendo uma realidade imutável, podendo opinar sobre as situações das sociedades atuais, mesmo não se nutrindo de fato dessas mesmas realidades.

Enquanto as sombras do milênio passado se distanciam cada vez mais, com seus medos, curiosidades e incertezas essências, o cristianismo [leia-se, sempre, a Igreja], se defronta com sério dilema: por um lado, adequar-se à mentalidade de uma época intrínseca de materialismos e realidades mundanas, pondo em segundo plano tudo aquilo que caracteriza o seu credo enquanto religião, quem sabe, para conquistar novos espaços, para imergir de modo mais sistemático no social e para tentar aproximar-se mais das pessoas, respondendo-lhes, mais que quaisquer outras, ânsias econômicas e demais problemas terrenos; por outro, continuar a manter seu próprio rosto, sua única e imprescindível vocação sobrenatural, com seus próprios princípios eternos.

Dada a natureza e as finalidades da religião cristã, parece súbito evidenciar que com a busca de excessivos [ainda que idealmente justos] compromissos terrenos e generosos que a Igreja assumiu por meio da sua Doutrina Social, arriscando, com a sua ação, de desfigurar o verdadeiro vulto da Igreja, ou seja, o de Cristo. O cristianismo, agrade ou não, é e permanece sendo uma fé. Segue-se, portanto, que, quem o aceita, o aceita por inteiro, e quem o rejeita, o rejeita completamente. Reflexo invertido, quem sabe, dessa época tecnológica em que tudo é possível e lícito, em que todas as coisas formam o direito, enquanto o dever [que é a base do direito] é encarado como um incômodo opcional.

Há décadas, muitos intelectuais marxistas, pós-marxistas e "catocomunistas" [como são chamados os católicos de esquerda na Itália] levantam uma hipótese, digamos, curiosa, mas igualmente infundada: se Jesus retornasse e decidisse se meter em assuntos políticos, se associaria ao credo igualitário marxista? Não são, de fato, os marxistas uma multidão de cristãos em busca de uma nova igreja mais humana e mais justa que satisfaça completamente as suas aspirações de eqüidade? Acaso não têm sido sempre os discípulos de Marx alvos das filas dos pobres [ou, empobrecidos, como queiram], reivindicando justiça e paridade, como fez o próprio Jesus Cristo? E mais: não seria tempo de a Igreja, que está comprometida há tempos com o poder [pelo menos desde que o imperador Constantino subiu ao trono], dê início a uma obra de purificação para reencontrar o caminho humilde do Evangelho?

Diante dessas interrogações, surge uma contra-pergunta: pode, na realidade, subsistir uma condição de conciliação real entre o cristianismo e o marxismo? Partindo de uma atenta e não polêmica análise racional, seria provável que não e com o aplauso inclusive dos católicos "históricos" que interpretam o Verbo feito carne numa ótica exclusivamente social e terrena, tentando, de certa forma, depurar sua real essência transcendental e meta-histórica.

Ainda que sem tentar, por motivos óbvios, expor todos os motivos dessa incompatibilidade, é possível dizer, pelo menos, que a rígida negação do conceito de "além", característica do credo marxista, anularia de cara com o principal pilar da fé e, quem sabe, incidir – lenta, mas, inexoravelmente – nos comportamentos intelectuais e prático do militante católico, sobretudo naquele empenhado com o social, distanciando-o do conceito de dogma e, portanto, de fé. Ainda que, como se verifica, a partir da derrubada do Muro de Berlin e do fim do sonho comunista, os neo-marxistas, órfãos duma igreja materialista extinta, passaram do lixo a priori do "ópio" da religião, para um movimento de assimilação do próprio credo cristão.

Alguém duvida que tanto "Cristo" quanto "Marx" estejam em plena crise de identidade?