sexta-feira, 4 de julho de 2008

Amarre a meia e seja feliz!

Tá endividado? A mulher lhe abandonou? Não consegue sair do vermelho? Problema de chifre? Andando a pé? Seus problemas acabaram! Chegou o novo, o único, o revolucionário NÓ NA MEIA! Basta amarrar uma meia, esvaziar o bolso e... pronto! Resultado garantido!



Pior que aceitar a ignorância religiosa como "religiosidade popular" é inventar novas superstições para explorar ainda mais essa mesma ignorância ou o desespero de muita gente para lucrar. Vale tudo: nó na meia, sabonete com extrato de arruda, sessão forte do descarrego, banho dos três elementos, rosa vermelha contra mal-olhado... Tudo mesmo que tenha a ver com a propagação de uma fé milagreira, alienante, carrinho-de-supermercado e imediatista.

Talvez a falta de formação [religiosa, educacional, humana] e a pobreza é que levam essa gente a submeter-se a coisas tão absurdas que beira o hilário. E talvez o medo de perder a clientela – já que a religião hoje em dia virou mercadoria em promoção exposta em prateleiras muito bem divididas – é que faz com que se peque por omissão diante da emburrecimento alheio.

Subir de joelhos escadarias enormes, andar quilômetros em romaria e outros tipos de promessas são válidas? Claro, mas não tanto quanto uma mudança definitiva de comportamento em relação ao outro e a si mesmo. Rezar mil vezes a Ave-Maria[!!!], fazer novenas, cercos de não-se-o-quê e outras práticas piedosas têm valor, lógico; todavia, valor maior possui a oração diária, perseverante, feita espontaneamente a cada dia.

Mas, porque os poderosos da fé aplaudem e prestigiam mais a ignorância religiosa do que a fé consciente, consistente? Porque não há nada mais anestésico do que a religiosidade, que não incomoda porque é passiva: não reclama, não contesta, não questiona, "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...". É a religião do "amém", do "Deus quis assim".

Deus quis assim, uma ova! O que Deus quer é que tomemos consciência de que somos filhos e que, portanto, temos direitos num Reino que tem que começar aqui, hoje. O Criador quer fome, miséria, mortes, violência ou amor, justiça, vida?

O próprio Deus, feito homem, nasceu fora do conforto de uma casa, num coxo de bois, teve que fugir para o deserto, ainda criança, para fugir da perseguição de Herodes e rodeou-se de pobres e semi-analfabetos e fez deles seus apóstolos. Ele se conformou com a religiosidade deles? Não! Com uma paciência estratégica e pedagógica, deu-lhes formação até seu último suspiro.

Teve dó dos doentes, curou-os, conversou com eles, quebrou tabus, tocou o leproso e ensinou-lhe a verdade. Apelidou os injustiçados, os perseguidos e os injuriados de "bem-aventurados". Ensinou a pedir o pão de cada dia para que ninguém que chame Deus de Pai seja forçado a um jejum obrigatório, causa da exploração. Entrava na lama sem se sujar, porque, mesmo descendo para falar com a prostituta não se prostituía; descia, para que ela subisse com Ele. Esteve com o aleijado, com o surdo, com a menina morta, com os cegos, com os cobradores de impostos, com os romanos, com os samaritanos, com os ladrões e os pequenos e conversava com eles. No sábado, defendeu seus amigos que, com fome, comiam milho. Para Ele, não tinha dia certo para servir as pessoas, todas elas. Rompeu paradigmas. Chegou ao cúmulo de propor que, quando alguém desse uma festa, que convidasse não a elite, mas os pobres, os coxos, os esfarrapados, os mendigos, já que não há troféu maior que fazer o bem a quem não pode retribuir.

Falava o que bem entendia, sem se preocupar em selecionar as palavras mais leves, menos chocantes, para que a verdade fosse dita sem frescuras, sem meios termos. Não tinha papas na língua, afinal, não podia perder tempo: tinha só três anos para deixar uma mensagem definitiva, perpétua, imutável, nua e crua. Sem fazer média, sem puxar o saco, sem jeitinho brasileiro, fez propostas simples e diretas a Pedro, Mateus, Zaqueu, ao Jovem (?) Rico, à Cananéia, aos fariseus.

É preto no branco, sem lero-lero: "Dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".

Crucificado, catequizou o bandido condenado; ressuscitado, foi aparecer por primeiro a uma ex-prostituta.

O Deus-Carpinteiro promoveu o excluído, o marginalizado. Educou-os.

Mas, já que o comodismo nos amarra, nos impede de fazer o mesmo, continuemos com nossos três nós: um na meia, um na garganta e outro na consciência.

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