terça-feira, 12 de agosto de 2008

Rua dos Bobos, № 0


Morreu uma professora que educou gerações de brasileiros. Fez o melhor que pôde a vida toda, apesar da remuneração miserável que recebia. Morreu e pouca gente ficou sabendo. Quase ninguém, nem mesmo aqueles que agora podem ler estas linhas só porque ela, pacientemente, os ensinou a ler.

Mas, assim como ela, todos os dias, muita gente boa vai embora desapercebida: o bombeiro que morreu queimado cujo salário mal dava pra pagar as despesas de casa; o jovem que fazia trabalhos voluntários na periferia; a freira que deixou o conforto da pátria materna e foi assassinada por defender a causa dos pobres; os torturados desaparecidos durante a ditadura militar... Gente de todos os tipos, de idades diversas, com sotaques e ideologias diferentes, que, quando vivos, não receberam nada além de portas na cara, risadinhas e comentários irônicos, indiferença, descrédito e ingratidão, muita ingratidão... quem sabe até ganharam meia-dúzia de elogios [clichês] fingidos e forçados, falas prontas repetidas trocentas vezes em cenas de novelas. E, depois de mortos, homenagens. Vãs. Vazias. Artificiais, com jeito de plástico made in China. E é sobre isso exatamente que tenho pensado nesses dias.

Celebram-se cultos e missas solenes com gente importante [com anúncios na Tribuna! Uia!] para tentar ressarcir o fulano que em vida foi ignorado por completo. E vejam só: mesmo assim, ele ganhará bustos na praça, onde o tempo, os pombos e os pichadores se encarregarão de manchar, pintando, dessa forma, o mais autêntico retrato do que receberam dos bão-da-boca em vida. Os donos do jogo darão o nome do indivíduo a ruas, avenidas, ginásios de esporte, escolas, asilos, blocos universitários, centros culturais, museus, estádios e o caramba. Inaugurarão viadutos e lhes emprestarão seu nome. Criarão leis e outra vez o nome do desprezado estará lá, bem no título, bem bonitinho. E pronto! Linda homenagem! Está tudo devidamente indenizado, como manda o figurino. É como se num passe de mágica [ou de macumba], toda a falta de reconhecimento, todo o desrespeito que tais idealistas receberam durante a vida e levaram magoados consigo para o túmulo fossem apagados. Como se essa babação-de-ovo póstuma tivesse o poder de jogar pra debaixo do tapete – já grosso de pó velho – as frustrações impostas. Sim-salabim!

Só se esquecem, porém, que rituais e homenagens póstumas não apagam traições. Estátuas não compensam torturas. Letreiros luminosos em prédios edificados com grana pública não ofuscam isolamentos cruéis. Jardins no centro não limpam cusparadas. Isso não basta.

Não basta dar o nome de uma professora a uma escola pública. É pouco demais! É necessário brigar para que a escola pública seja promovida de verdade e os educadores, valorizados. Eis a homenagem verdadeira!

Construir um belo obelisco a pacifistas regionais não basta. É mísero! Insensatez! Para homenageá-los, seria preciso construir a paz e a justiça pela qual lutaram, e não monumentos apenas.

Não basta pregar uma placa para um militante idealista numa salinha. Isso é nada! Importa tirar do túmulo seus ideais, levar suas idéias adiante.

Que é dar a um conjunto habitacional o nome de um político honesto? [Sim, eles existem.] Nada! O que vale mesmo é vestir a camisa da honestidade e bater o pé quando esta faltar.

Não basta beatificar um mártir. É muito pouco. É preciso imitar-lhe a coragem, a perseverança e ajudar outros corajosos e perseverantes em suas lutas, para que não precisem conhecer o batismo de sangue.

Os bão-da-boca sabem disso, minha gente. Ah, se sabem! Confiam devotamente, de olhos fechados, na passividade, na imbecilidade das massas; porque sua consciência, sua criticidade, eles soterraram no concreto do obelisco.

Os bão-da-boca, à luz de flash e sob o aplauso alienado de uma platéia simples e comovida, inauguram monumentos póstumos e enterram o "homenageado" de vez. Ele e as idéias pelas quais lutava, pelas quais deu a própria vida.

Pro diabo com seus bustos! Fodam-se suas homenagens fingidas! Que mané nome de museu! Que mané Tribuna! Enfiem no cu seus obeliscos, hipócritas do caralho!

Plaquinhas de bronze? Estátuas? Nomes de avenida? Tudo isso vale muito pouco, meu caro.

Muito pouco mesmo.

E até a cruz, cujo simbolismo amo e defendo, é muito pouca coisa. Quero menos cruzes e mais Cirineus.



3 comentários:

Anônimo disse...

Prof Fabio esse artigo sozinho ja valeu o seu blog. Pode deixar q quando eu for prefeito vou mandar fazer uma estatua tua companheiro. Rsrsrsrs .... Brincadeira. Mas seu texto ta espetacular.

Abraco

Lucas

Fábio Sexugi disse...

Obrigado, Lucas! Abraço!

Marcelo Henique disse...

Parabens mais uma vez!