Conflito e prosa nas noites jovens silenciosas de Deus, dos homens Sufocado Ecoa o grito calado de Frei Tito
Justiça... Paz...
Tito Nordestino Tito de Alencar Tito Clandestino Tito de Além-Mar
Roma... Paris...
Frei sem receio Frei da viola Frei que viola A lei do freio
Terço... Foice...
Frei Delito Frei Bendito Frei Maldito Frei Tito
Fleury... Marighela...
Tito dominicano bandido procurado do sol quadrado do sol aflito Santo profano Santo contrito avermelhado
Engels... São Domingos...
Tito risonho da utopia Tito do sonho da poesia Tito aditado todo ternura Tito cansado pela tortura Tito marcado pela saudade Tito banido pela história Tito exilado desigualdade Sentenciado pela memória
Quisera mudar-me em sopro vento brisa branda e jogar-me em vôo solto! Roubar pelas matas errante pétalas de açucena e jogá-las em confete no teu colo sutil Tocar suave teu rosto Soprar leve teus cachos se cansada sozinha deitares à sombra do ipê-rocho refrigério e sentir-me no ar dente-de-leão
pétalas no chão Abranger teu corpo meigo eu vento apaixonado Agitar teu vestido sopro volúvel caindo aragem de teus seios aos quadris fitar ligeiro teus olhos frutos de castanheira Contemplar teus dentes alvo ramo de azaléias Beijar tua alma eu brisa pungente consagrar-me à tua carne moça E em seguida retornar eu livre às mesmas matas santuário
Esperarei que o sol caia no horizonte E que a lua surja por detrás dos montes E olhando a noite nascer sorridente Procurarei a estrela mais reluzente Cujo brilho as outras despreza E pedirei baixinho, como quem reza: "Ilumina, irmãzinha, os seus sonhos e que os anjos lhe guardem, proponho que esquente-lhe o coração, insisto para que perceba enfim que eu existo e que faça brotar-lhe um sorriso cada vez que pensar em mim de improviso."
Bendita Dona Amazília, que briga pela juventude. Bendito Seu José, que sai de casa às cinco da matina para cortar cana e só volta à noitinha. Bendita Dona Penha, desbocada e sorridente, que faz faxina em cinco casas diferentes para sobreviver. Bendita Dona Mirtes, que vive da venda de seus confeitos. Bendita a velhinha japonesa budista que varre a minha rua inteira todos os dias com sorriso largo. Bendito pastor Cido, líder de uma comunidade neopentecostal que, de bicicleta, vende verduras para sustentar seus três filhos.
Bendita Professora Zilda, que educa como mãe seus alunos e me oferece nó-de-sogra que só ela sabe fazer. Bendita Dona Isabel benzedeira, que dá esperança a quem vive aquém da saúde pública. Bendito Louviral, filho da Dona Jandira, que à tinta desenha um mundo mais bonito. Bendita Cíntia que, mesmo pobre, não aceita que a pobreza sirva de desculpa para quem se perde na vida. Bendita Dona Elvira, professora aposentada, que mantém sozinha há mais de 50 anos uma escola numa propriedade rural. Bendito J.I. que tenta de novo sair do mundo das drogas. Bendito Arleto, que exalta minha terra com sua poesia. Bendita Dona Nely, voluntária da Pastoral da Criança. Bendito Seu Elói, o taxista, que faz corridas gratuitas pra vizinha anciã doente. Bendita a filha da mãe que se matou, e que agora tem que cuidar sozinha da casa, dos irmãos e do futuro e, ainda assim, não blasfema. Bendita Dona Joaquina, que reza o terço todos os dias intercedendo por todo mundo, sendo, mesmo analfabeta, a maior teóloga e pedagoga que conheço. Bem-aventurada é minha gente, no seu peito aberto e nos seus pés vermelhos!
Enquanto em Sydney, cristãos do mundo inteiro participavam da 23ª Jornada Mundial da Juventude com o papa, na cidadezinha de Farol [da famosa Prefeita Dina Cardoso], jovens da região de Campo Mourão participavam da 1ª Jornada Diocesana da Juventude.
Eu também estava lá para dar uma palestra sobre a realidade dos jovens na nossa região, que não é nada boa pelos motivos que já evidenciei aqui mesmo, anteriormente. Encontrei jovens de várias idades e de todos os tipos: carismáticos, pejoteiros, marianos, cursilhistas, vicentinos, seminaristas, católicos de rito ucraniano, luteranos e até ateus. Conversei com vários deles, escutei suas expectativas, seus receios, suas músicas, suas frustrações, suas piadas e até me diverti jogando sinuca e ping-pong de madrugada enquanto arranjavam um lugar pra eu dormir.
Todavia, entre eles, o que me chamou atenção foi um grupo de jovens paulistas que vestiam roupas vermelhas, vendiam bombons e se destacavam pelo sorriso espontâneo e fácil, membros de uma tal Missão Pelicano. Depois da minha fala no sábado de manhã, uma vermelhinha - que chamava todo mundo de "santo" [inclusive a mim!] - me ofereceu um bombom de castanha, comentou sobre o que eu acabara de falar, perguntou o significado de algumas palavras latinas e falou da sua vida, de como deixou a família no Estado de São Paulo para viver em comunidade, servindo os pobres, aqui no interior do Paraná. E isso tudo me deixou muito esperançoso.
Jovens da comunidade Missão Pelicano.
Saí de Farol animado, com a esperança de que esses jovens serão faróis para a realidade escura que enfrentam hoje. Eu creio na força de mudança da juventude. E a eterna Helena Kolody também:
Morreu ontem, aos 101 anos [ou 102, como sustentava], a mãe da comédia brasileira, a dama da espontaneidade e do bom humor. E eu jurava que a Dercy ainda ia me enterrar. Que porra!
Pra recordar, destaco dois vídeos que publiquei recentemente no YouTube com participações da atriz na TV:
Lucas desapareceu no dia 21 de junho de 2008, quando saiu para brincar na rua com o irmão, Caio Pereira, 8, no Jardim Beatriz, periferia de São Carlos [232 km da capital paulista]. Os dois meninos e a mãe, Marcelene Érika Pereira, se mudaram no começo do mês para a cidade.
As informações sobre o menino devem ser passadas para a DIG de São Carlos pelo telefone [016] 3374-1596
Minha casa é um recanto do mundo a doze passos do coração. É horta fértil, jardim fecundo, pelos Campos do Mourão.
Minha casa é colo e cafuné, é cheiro de mate e pão caseiro, é força e vida, vigor e fé que canta o sino de Engenheiro.
Minha casa é abraço apertado onde a Gralha Azul fez ninho. É beijo tímido, apaixonado nos cafezais de Sertãozinho.
Minha casa é floresta que se avista da janela velha rindo à toa. É semente nova que o altruísta acomoda e rega em terra boa.
Minha casa é pinheiro, é cipestre que penumbra, em trilha oportuna, os tapetes do ipê roxo, flor silvestre nas calçadas de Araruna.
Minha casa tem gosto de Carneiro ao Vinho, Sabor sagrado, segredo sangrado no sul. É terra rubra que pinta o pé pelo caminho, é sossego, saudade e sol. É Peabiru.
A língua camoniana mais uma vez vai ser mudada pelo acordo ortográfico. Trata-se duma mudança besta, desnecessária, completamente dispensável tanto do ponto de vista político e mais ainda do cultural e lingüístico. Digo isso porque não é concebível que, diante da fartura de discussões acadêmicas sobre a natureza da língua e da repercussão que essas mesmas discussões costumam ganhar, aceite-se tão passivamente que meia dúzia de políticos venham nos dizer como devemos escrever nossa própria língua-mãe, sob o pretexto de dar maior visibilidade à língua no mundo moderno [como se o mundo e mesmo os próprios países afetados pelo acordo estivessem lá interessados na unificação das grafias].
A língua é em si mesma. Tem vida própria. E como tal, deveria ser soberana, imune às imposições das frescuras dos políticos. A ortografia e as estruturas gramaticais deveriam acompanhar o curso natural da vida de uma língua e não podem estar sujeitas ao autoritarismo de pseudolingüistas bajuladores do poder de Brasília/Lisboa [porque só pela puxação-de-saco é que conseguem estuprar nossas gramáticas, impondo à força, artificialmente, aquilo que pela via das idéias são incapazes de fazer].
Insisto: a língua é em si mesma. E, sociolingüisticamente, é bobagem pensar que brasileiros, portugueses, moçambicanos, angolanos, guineenses, timorenses e são-tomenses, que têm culturas completamente diversas, vão falar de modo uniforme, como pretendem os caras do poder. Não farão isso, porque o que difere esses gentílicos em relação à língua comum vai além da grafia: está na gramática natural, nas expressões usadas que são únicas para cada um deles. E não adianta usar sebentas pirosas para defender essas injunções, dado que o tal acordo, pra mim, vale menos que uma chávena de bica numa locanda de bairro de lata ou uma bacorada que um tulho qualquer conta. [Não entendeu? Quem sabe o acordo ortográfico ajude você! Já que é exatamente isso que pretende o tal tradado.] Pois bem, se a gramática não suporta todos os fenômenos lingüísticos, tampouco a legislação dá conta das diversidades gramaticais profundamente enraizadas nos países cujo português é a língua-pátria.
Esse tratado político – estrita e unicamente político – me causa freqüente enjôo [com trema e circunflexo, claro!] porque todos os países envolvidos, até mesmo Portugal, têm assuntos mais urgentes para tratar. E, a despeito do acordo, vou continuar rabiscando como aprendi. "Graphar é a vingança", como diz bem o poeta João Filho.
Uma coisa é certa: o acordo ortográfico vai deixar o famoso poema de Olavo Bilac desatualizado.
— Desacelera, desacelera! — Não dá! Não dá! — Ai meu Deus! — Pô, meu. Varou... — Vira, vira, vira! Vira, vira, vira... [Barulho do choque]
O diálogo desesperado acima, registrado na caixa-preta do Airbus 320 da TAM, foi levado ao ar pelo Jornal da Record de ontem, que mostrou ainda que o descumprimento de uma norma foi determinante nesse acidente aéreo que deixou 199 mortos [entre os quais, a peabiruense Zenilda Cunha].
Zenilda, com a família. Estavam todos no avião da TAM.
A reportagem exibiu também as pilhas do inquérito policial que já têm mais de 13 mil páginas. Nelas, consta o depoimento do tenente Gilberto Schitiini que, na época, era gerente da Agência Nacional de Aviação Civil. O tenente faz referência a uma determinação acordada numa reunião em 13 de dezembro de 2006, entre a Gol, a TAM, a Bra e a ANAC, proibindo o pouso de aeronaves com reverso pinado [travado] em pista molhada no aeroporto de Congonhas. Se essa norma tivesse sido levada em consideração, certamente a maior tragédia da aviação brasileira teria sido evitada.
Eu estava na Itália quando o acidente aconteceu, participando dum congresso. Além da tristeza que certamente arrebatou o Brasil inteiro, senti uma vontade tremenda de voltar para casa. [E ali, bem longe da Pátria, eu entendi e senti pela primeira vez o que talvez signifique Pátria.]
Voltei dois dias depois, conforme previsto.
Desembarcando no Aeroporto do Galeão, no Rio, me vi no meio dum caos duzinferno: tive que encontrar, no meio daquele vuco-vuco insuportável, a agência da TAM para, finalmente, embarcar pra São Paulo. Aconteceram algumas coisas engraçadas que prefiro não escrever aqui para não perder o foco do assunto principal. Mas, caso queiram saber, me adicionem no MSN [sexugi@hotmail.com].
Pois bem, cheguei a São Paulo ainda à noite, onde era visível o abatimento das pessoas. Era como se todo mundo tivesse perdido um familiar naquela maldita aeronave.
Eu estava de volta ao Brasil, de volta à minha gente, à minha língua [com suas crases facultativas antes de pronomes possessivos]. Mas também de volta ao Brasil da impunidade, do conformismo, do descaso, do jeitinho.
Um ano depois, aquilo que não precisava mudar, mudou: o acento agudo nos ditongos abertos e nas proparoxítonas precedidas de ditongo; o circunflexo em palavras com hiato; a maioria dos hifens; o acento diferencial; e o trema [até meu querido trema] já estão todos no Airbus 320 do acordo ortográfico, prontos pra lançar vôo.
Enquanto isso, na Sala da Justiça [ou da Injustiça], a fome, a miséria, o desemprego, a impunidade, a corrupção [a putaria escancarada da corrupção], o analfabetismo [das letras e da política], a desordem, a estupidez e o caos continuam mais vivos do que nunca, bem seguros, em terra firme. A morte, paradoxalmente, também continua viva.
Na Festa do Carneiro no Buraco em Campo Mourão, uma adolescente de 15 anos foi assassinada com um tiro na cabeça. No último sábado, em Peabiru, um jovem foi morto com vários tiros em plena luz do dia. Seu assassino é jovem também. Poucas horas depois em Campo Mourão, um rapaz de 21 anos foi assassinado a pedradas.
Diz um cantor católico que Deus tem o mesmo rosto da juventude.
Se insano é Olavo dos Guimarães Bilac Com seu "Delírio", sua "Via Láctea" Sensatez de que serve? Mate-a! Havendo, pois, quem me ataque Por dizer que falta um parafuso Em Fernando Pessoa de Portugal Ou por chamar Camões de anormal Imprudente que sou, escuso.
Tem senso Drummond de Andrade Dizer que há gente com cheiro de cafuné? E agora, José? Agora é loucura, genialidade!
Poesia é o hospício d’alma Hospício que não sana, vicia Il cui Dante portò dal cielo della pazzia Dal cielo che mi rubba la calma
Até Kolody, minha favorita Na brevidade dos haicais Mostra que não são normais Os namorados da escrita
E se divago em tom introspecto Rabiscando sob tensão metalingüista É que ainda há quem insista não ser louca Clarice Lispector
Palavra inútil e filadaputa Derramo agora em meu teclado Poema sem jeito, inadequado Inquieto, peabiruta
Sou louco, sim, sem exceto Como louco é Miguel Sanches Neto E se também o é Alex Dancini Haverá quem me recrimine?
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P.S. Escrevi esse poema pensando numa afirmação do poeta ararunense Alex Dancini [sobrenome cuja pronúncia eu pensava que fosse "Dantchini"] que, comentando a postagem anterior a essa, disse: "Escrever aquilo que está na mente é o início da corroboração de que se é um pouco louco".
Depois duma breve discussão comigo mesmo, concordei. Sou doido, biruta. Reconheço.
Encontrei de manhã minha ex-professora na fila do supermercado. Ainda bem, porque fila de mercado no sábado é um pé no saco, um verdadeiro exercício de paciência/penitência. Relembramos as aulas, as minhas teimosias, os teatros cômicos, os projetos e outros assuntos do gênero, com boas gargalhadas. Por fim, elogiou meus rabiscos neste espaço e me fez uma pergunta simples mas que me deixou encucado:
— Por que você escreve?
Ainda bem que era a minha vez de passar pelo caixa, e pude escapar da resposta. Isso é lá pergunta que se faça, profª Marilene? Hehehe.... Escapei da resposta, não do questionamento. Mas, como assim, "por que eu escrevo"? Tenho que ter motivo?
Escrevo porque gosto de escrever. Melhor, de rabiscar. Rabisco, rabisco, finjo que escrevo. É só fingimento. Mas, fico satisfeito.
Rabisco não "porque", mas como quem escreve e joga no mar mensagens dentro de garrafas. Não existe um porquê. É assim mesmo, à toa. O que existe sim é uma expectativa – boba, talvez – de que algum curioso com espírito sublime [porque só os curiosos com espírito sublime valorizam essas que a maioria chama de coisas de quem não tem o que fazer] abra essas garrafas, leia meus rascunhos, e pense. Expectativa, não porquês.
Passano i giorni sotto il cielo di Peabiru E rimango ancora io qua giù Passano, ma non sono capaci mai Di far passare la mancanza che fai Dentro me ancora di più
Quando il piazzale attravesso Che oramai non è lo stesso Penso di sentire tuo sorriso Bello ed unico sul tuo viso Di cui mi ricordo spesso
Vita, gioia, forza e coraggio Van via subito con i venti di maggio Ma giacché il destino, o fiore spezzato, Ha voluto coglierti per lasciarl’ ornato Non posso che farti un ommaggio
Ommaggio in italiano, lingua della malinconia Sentimento che contrasta con la tua allegria Perché la nuvola fredda che ha lasciato soli I tuoi amici, cara Tatiana Maioli Soffia ancor oggi nostalgia...
Quer dizer então que querem pôr grades e a polícia para afastar os mendigos dos arredores da catedral de Campo Mourão? Já tá podendo isso agora? Não foi a Igreja na América Latina que assumiu em Puebla uma tal opção preferencial pelos pobres; e, mais recentemente, em Aparecida, exigiu fidelidade a essa mesma opção? Como é que alguém que comunga nessa mesma Igreja e que vive numa das regiões mais pobres do Estado [conforme o próprio Dom Mauro atentou tempos atrás] pode agora sugerir um "apartheid" desses na Sé da diocese? Não consigo ver lógica nenhuma nisso.
Os carros do estacionamento estão sendo riscados? Contratem um guarda, oras! Afinal, católico que paga impostos também paga dízimos. Os menores e os pedintes causam problemas à catedral? Pois então que a catedral faça um trabalho social que os contemple, que lhes dê oportunidades, que os evangelize, que faça valer a caridade.
Do contrário, rasguemos os documentos do episcopado latino-americano! Do contrário, rasguemos o próprio Evangelho! Porque separar a Igreja dos pobres é separá-la de Cristo. Numquid Christus Iesus cum pauperibus non ambulabat?
Como Helena Kolody, Quero, Senhor, lhe pedir, Que eu também seja bom, E minha vida seja um dom. E se eu não souber deixar claro O céu de quem vive sem amparo, Dê-me um coração atento Ao alheio sofrimento. E não permita, por favor, Que eu recuse dar amor A quem padece no lamento.
Nos versos de Renato Russo, um retrato da juventude dos Anos 80/90, da minha geração.
Uma geração superficial? Talvez. Porém, há uma tremenda profundidade no nosso superficialismo. Sabemos tudo mais ou menos, mas agimos com a convicção plena de que sabemos tanto ou muito mais que os outros. Minha geração porta um oceano de contradições, uma enciclopédia de perguntas com trocentos volumes. Perguntas que ninguém tem saco ou coragem de tentar responder. "Você espera respostas que eu não tenho. Mas, não vou brigar por causa disso..." E, mesmo quando os "respondendores" arriscam rascunhar alguma resposta diferente daquelas que formularam antes, mesmo assim, a gente não aceita.
A minha geração é aquela que busca novos valores. Ou melhor, busca uma forma menos hipócrita de viver os mesmos valores eternos. Valores que incomodam e que não nos deixam estáticos, mudos. [Se bem que, no fundo, bem no fundo mesmo, somos tão incoerentes quanto os respondedores, mas com a coragem – às vezes, ingênua – de protestar, de encarar quem pode mais, de falar alto quando preciso, de assinar contestações e rir de tudo depois, com uma Skol bem gelada, mas sem espuma].
Minha geração, embora não pareça, é moralista e exige coerência de comportamento nos respondendores, quando percebe algum sinal de fingimento. Agride, denuncia, berra e sai de boa depois, com a tranqüilidade própria dos jovens da minha geração, ouvindo Legião bem alto no MP4 paraguaio. "E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade. E há tempos são os jovens que adoecem..."
A minha juventude relativiza absolutismos e absolutiza o relativismo. Mas, mesmo assim, demonstra uma inquietação espiritual, de tal forma grande, que necessita demonstrar carinho, admiração e até uma certa veneração por pessoas capazes de viver [mesmo que de modo absolutista] paz de espírito e de transparecê-la aos outros. "Quem me dera, ao menos uma vez, entender como só Deus ao mesmo tempo é três. Esse mesmo Deus foi morto por vocês, é só maldade então deixar um Deus tão triste..." É, em suma, a geração que pede a Deus que Deus exista. Mas que dorme no meio da oração.
Minha geração é aquela que escreve à meia-noite um texto sobre a própria geração, lê de relance, toma um copo de Nescau gelado pensando se vale a pena publicá-lo, vai ao banheiro, mija [pensando em novos parágrafos e assuntos não abordados], volta, relê, diz: "que se foda!" e publica mesmo assim e com o refrão de uma música do Legião pra ficar bonitinho.
Acho engraçado o choque cultural entre brasileiros de regiões diferentes. Conversando ontem com um amigo teólogo baiano, Jeremias Santiago, que conclui um período de estágio em Peabiru, fiquei sabendo que na terra dele amendoim se come cozido e com sal e que isso se vende em bares, padarias, e que lhe faz uma falta danada... Disse que no dia de São João, longe da Bahia, deu-lhe uma tremenda fissura: percorreu Peabiru inteira procurando um lugar onde se vendesse amendoim cozido. Coitado!
Trata-se, evidentemente, de apenas uma das particularidades da Bahia. A culinária baiana tem algo de especial. Talvez, porque seja de certa forma divinizada, sacralizada. Acho interessante, por exemplo, como descendentes de africanos associam o alimento às divindades do candomblé. Cada orixá tem um prato específico, uma comida preferida:
EXU – Farofa, pipoca, feijão, inhame, mel, gim, azeite de dendê e pinga [padê]; OGUM – Feijoada, xinxim, acarajé e milho branco [macundê]; OXALÁ – Arroz socado no pilão, mel, milho branco sem tempero; OXÓSSI – Bolo de milho branco ou amarelo [acaçá], coco, peixe de escamas, feijão e até Karo [uia!]; OSSAIM – Feijoada, mel e coco; OXUMARÉ - Amendoim cozido [dá-lhe, Jeremias!], batata doce e mel; OXUM – Feijão-fradinho, ovo, mel e milho branco; XANGÔ – Quiabo com camarão seco [ajobô], arroz, feijão e farofa; IANSÃ – Acarajé; OBÁ - Ajobô, arroz, feijão e farofa; NANÃ – Folha de mostarda com arroz; IEMANJÁ - Arroz com mel e manjar branco.
Agora, se um dia eu me tornar um orixá [já que perdi as esperanças de ser canonizado, fico satisfeito com o sincretismo], tenham a bondade de acrescentar àquela lista:
SEXUGI[até parece mesmo nome de orixá, hehehe...] – Carneiro ao vinho, quibe com bastante hortelã e cominho, paçoca, sopa de feijão, pizza de gorgonzola, vinho tinto, churrasco, Doritos Queijo Nacho, chocolate meio-amargo, pinhão, tabule, leite condensado cozido, gnocchi, pão de queijo e café forte.Oferendas de peixe ou frutos do mar terão sido afronta, heresia gravíssima. Do litoral, só mesmo o Barreado de Paranaguá.
Mas, enquanto isso não acontece, vou experimentar o tal amendoim cozido. Será que presta? Oxalá!
Nossos adolescentes têm futuro? Não, não tem. E a resposta continuará negativa enquanto não houver políticas públicas sérias para a juventude. Os últimos dados do IPEA não me deixam mentir.
Mas, deixemos que o próprio jovem fale por si mesmo das suas expectativas para o futuro. No áudio a seguir, um menor mourãoense, detido com arma de brinquedo, fala da própria vida e do que espera para ela.
Pra vizinha, no banco da rua, Fala a comadre da vida da moça que pegou barriga do guri entupido de lombriga Porco duma figa!
Entre goles de café, insinua que um filho da vizinha é veado que o caçula, um bêbado drogado Pega até mulher do soldado Coitado!
"Traçou até a benzedeira", continua "a filha da Dona Francisca assanhada que nem pisca-pisca Nunca passou duma bela bisca." Arrisca.
"Por hoje basta!", pontua a amiga que ouviu todo futrico. "Cala a boca, fecha o bico Se te pegam com a boca no penico Que mico!"
Com mais gente em meia-lua Falam do prêmio que uma ganhou no bingo do curso que a outra faz pra falar gringo Até que na garrafa não sobre um pingo Domingo!
Marrom? Preto? Não! Não são as cores que dão alma à vestimenta simples de Santa Paula Elisabete Cerioli, a "Mãe dos Pobres". São os retalhos que tornam seu hábito religioso vivo. Retalhos, não de tecido, mas de experiências de vida de uma jovem provada por Deus desde a mais tenra idade; fragmentos de emoções intensas de uma esposa fiel e de uma mãe ferida...
O colo aconchegante dos pais em Soncino; o amor estranho e doentio do marido Gaetano; a perda dos filhos; a amizade e a doçura de Carlinhos; as tribulações em Comonte di Seriate; a dor aguda pela morte do último filho; a solidão; a inquietude... Cenas que não são mais que retalhos, e que, harmoniosamente, vão se dispondo e se entrelaçando de tal forma que, por si só, constituem um vestido de uma mãe bela e santa, costurado pelas mãos de Deus.
Um espetáculo! E no sentido primaz da palavra. Pelo menos foi essa a sensação que tive ontem assistindo ao Guardião do Fogo [representação teatral ao ar livre apresentada na Festa Nacional do Carneiro no Buraco em Campo Mourão, PR]
Cenas comoventes representadas com tanta vida, com tanto encanto, que era quase impossível não se comover: os bandeirantes e o extermínio dos índios do Peabiru, a chegada das primeiras famílias a Campo Mourão, as rezas no antigo cruzeiro, a colheita do café, a Folia de Reis, as festas de São João, a linda homenagem aos pioneiros... Um verdadeiro espetáculo!
Ao diretor Francisco Pinheiro e a toda a equipe o meu aplauso emocionado!
E quem duvida, que dê uma voltinha pelo centro de Peabiru.
O fato é que a praça está sendo revitalizada e as árvores antigas foram substituídas.
Tenho pra mim que o prefeito Eleutério Galdino de Andrade, que administrou Peabiru de 1956 a 1960 e que dá nome à praça, só pode ter sido palmeirense. Digo isso porque o jardim central da cidade, volta e meia, faz alusão ao time alviverde: em 2003, o obelisco foi pintado de verde!
A desculpa era que a cor do Hulck predominava na bandeira. Agora, cinco anos depois, e para a alegria dos corinthianos [hehehe...], as árvores da praça foram retiradas para dar lugar a nada menos que várias palmeiras.
Até entendo as piadinhas que a galera faz sobre o que aconteceu com ele. Afinal, não é todo dia que a gente vê por aí um sacerdote católico voando amarrado a balões de festinha infantil. Mais bizarro, quase impossível.
O que eu não consigo entender é que os colegas dele, os padres, riam também. Não entendo porque o que o Adelir queria com aquela cena inusitada era divulgar o trabalho que vinha fazendo na Pastoral Rodoviária, prestando um serviço sério aos caminhoneiros e familiares daquela região portuária do Estado.
Conforme disse Dom Alves dos Santos, bispo de Paranaguá, o Padre das Bexigas "era um homem muito dedicado, com um grande espírito de caridade". Características que os padres que agora debocham dele não têm. A dedicação e a caridade deles voaram faz tempo e dificilmente serão encontradas.
Tá endividado? A mulher lhe abandonou? Não consegue sair do vermelho? Problema de chifre? Andando a pé? Seus problemas acabaram! Chegou o novo, o único, o revolucionário NÓ NA MEIA! Basta amarrar uma meia, esvaziar o bolso e... pronto! Resultado garantido!
Pior que aceitar a ignorância religiosa como "religiosidade popular" é inventar novas superstições para explorar ainda mais essa mesma ignorância ou o desespero de muita gente para lucrar. Vale tudo: nó na meia, sabonete com extrato de arruda, sessão forte do descarrego, banho dos três elementos, rosa vermelha contra mal-olhado... Tudo mesmo que tenha a ver com a propagação de uma fé milagreira, alienante, carrinho-de-supermercado e imediatista.
Talvez a falta de formação [religiosa, educacional, humana] e a pobreza é que levam essa gente a submeter-se a coisas tão absurdas que beira o hilário. E talvez o medo de perder a clientela – já que a religião hoje em dia virou mercadoria em promoção exposta em prateleiras muito bem divididas – é que faz com que se peque por omissão diante da emburrecimento alheio.
Subir de joelhos escadarias enormes, andar quilômetros em romaria e outros tipos de promessas são válidas? Claro, mas não tanto quanto uma mudança definitiva de comportamento em relação ao outro e a si mesmo. Rezar mil vezes a Ave-Maria[!!!], fazer novenas, cercos de não-se-o-quê e outras práticas piedosas têm valor, lógico; todavia, valor maior possui a oração diária, perseverante, feita espontaneamente a cada dia.
Mas, porque os poderosos da fé aplaudem e prestigiam mais a ignorância religiosa do que a fé consciente, consistente? Porque não há nada mais anestésico do que a religiosidade, que não incomoda porque é passiva: não reclama, não contesta, não questiona, "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...". É a religião do "amém", do "Deus quis assim".
Deus quis assim, uma ova! O que Deus quer é que tomemos consciência de que somos filhos e que, portanto, temos direitos num Reino que tem que começar aqui, hoje. O Criador quer fome, miséria, mortes, violência ou amor, justiça, vida?
O próprio Deus, feito homem, nasceu fora do conforto de uma casa, num coxo de bois, teve que fugir para o deserto, ainda criança, para fugir da perseguição de Herodes e rodeou-se de pobres e semi-analfabetos e fez deles seus apóstolos. Ele se conformou com a religiosidade deles? Não! Com uma paciência estratégica e pedagógica, deu-lhes formação até seu último suspiro.
Teve dó dos doentes, curou-os, conversou com eles, quebrou tabus, tocou o leproso e ensinou-lhe a verdade. Apelidou os injustiçados, os perseguidos e os injuriados de "bem-aventurados". Ensinou a pedir o pão de cada dia para que ninguém que chame Deus de Pai seja forçado a um jejum obrigatório, causa da exploração. Entrava na lama sem se sujar, porque, mesmo descendo para falar com a prostituta não se prostituía; descia, para que ela subisse com Ele. Esteve com o aleijado, com o surdo, com a menina morta, com os cegos, com os cobradores de impostos, com os romanos, com os samaritanos, com os ladrões e os pequenos e conversava com eles. No sábado, defendeu seus amigos que, com fome, comiam milho. Para Ele, não tinha dia certo para servir as pessoas, todas elas. Rompeu paradigmas. Chegou ao cúmulo de propor que, quando alguém desse uma festa, que convidasse não a elite, mas os pobres, os coxos, os esfarrapados, os mendigos, já que não há troféu maior que fazer o bem a quem não pode retribuir.
Falava o que bem entendia, sem se preocupar em selecionar as palavras mais leves, menos chocantes, para que a verdade fosse dita sem frescuras, sem meios termos. Não tinha papas na língua, afinal, não podia perder tempo: tinha só três anos para deixar uma mensagem definitiva, perpétua, imutável, nua e crua. Sem fazer média, sem puxar o saco, sem jeitinho brasileiro, fez propostas simples e diretas a Pedro, Mateus, Zaqueu, ao Jovem (?) Rico, à Cananéia, aos fariseus.
É preto no branco, sem lero-lero: "Dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".
Crucificado, catequizou o bandido condenado; ressuscitado, foi aparecer por primeiro a uma ex-prostituta.
O Deus-Carpinteiro promoveu o excluído, o marginalizado. Educou-os.
Mas, já que o comodismo nos amarra, nos impede de fazer o mesmo, continuemos com nossos três nós: um na meia, um na garganta e outro na consciência.
De acordo com manchete publicada hoje no Portal da Rural, a "ACICAM pede que campanha eleitoral tenha alto nível. Propostas e planos para a cidade, no lugar de ataques pessoais".
Será que o prefeito Nelson Tureck e o vereador Sidnei Jardim leram a nota?
Dominar as funções básicas do computador, pôr pra funcionar um aparelho de DVD, ajustar o projetor, instalar um microfone e controlar o som, ligar um CD player ou mesmo um televisor: coisas simples, mas que ainda são encaradas como um bicho-de-sete-cabeças por muitos professores que, por medo do novo [não tão novo assim] deixam de lado a tecnologia e abusam à exaustão da relação quadro-giz.
Os alunos sentem necessidade dessas inovações que podem marcar a aprendizagem para sempre. Nunca me esqueço, por exemplo, de quando a minha alfabetizadora, Dona Carmem Flores Bassi, levou para nossa turma uma máquina de escrever para que datilografássemos nela o próprio nome. Aquilo foi incrível, quase mágico!
Pois bem, se laaaaá em 1987 a piazada já se empolgava com algo tão banal [que hoje até virou peça de museu!], quanto mais os alunos de hoje, em plena era da informática e da telecomunicação!
Nesse ano letivo de 2008, a escola onde eu trabalho conseguiu – depois de muito esforço e insistência – inaugurar um laboratório de inclusão digital, que oferece informática básica tanto para os alunos, quanto para os educadores da instituição. Como sou eu o professor-monitor, pude comprovar o que eu já suspeitava antes: crianças de 5 a 6 anos estão deixando muitos professores no chinelo. Com segurança e autonomia, conseguem ligar o PC, manusear o mouse e o teclado [mesmo sem saberem ainda todo o alfabeto] satisfatoriamente, sabem abrir, explorar e fechar diversos softwares.
Isso demonstra o quão distante os educadores ainda estão da realidade e dos anseios dos alunos e aponta para a urgente necessidade de troca de experiências pedagógicas/tecnológicas entre eles, não apenas na Educação Intantil e no Ensino Fundamental. Por outro lado, isso confirma que o papel do professor, apesar da tecnologia, sempre será insubstituível. Fundamental.
Para a primeira edição da Revista Família São José - um informativo escolar produzido pelo instituto onde eu trabalho em Peabiru - tive a felicidade de entrevistar Dona Mercedes, uma educadora aposentada, dona de uma simpatia única. O resultado da conversa está no texto a seguir.
Passos lentos pelos corredores da escola. Lá vem Dona Mercedes, ou Vó Mercedes, como ainda é carinhosamente chamada pelos alunos da Escola São José a professora que, pela simpatia, sabedoria e simplicidade, tornou-se uma espécie de Dona Benta da escola. Depois de despedir-se do netinho, que acompanha diariamante até a fila da Educação Infantil e de um bate-papo rápido com a secretária Sueli, ela segue para uma entrevista informal, em que conta alguns de seus momentos importantes como educadora.
Mercedes Bassi Alves nasceu em 4 de agosto de 1933, na cidade de Coroados no interior do Estado de São Paulo. Viúva e mãe de duas filhas – uma das quais, também professora – ela se lembra que quando menina nem pensava que seria educadora. Seu sonho? Ser modista, uma vez que tinha muita habilidade para corte e costura. Todavia, por sugestão do pai, acabou abraçando o magistério. Dona Mercedes faz questão de mencionar a importância que o pai dava à figura do professor e de como, em apenas um mês, aprendeu em casa as 23 lições da cartilha, com a ajuda da mãe. Embora não tivesse freqüentado escolas, mantinha-se informado, instruindo-se com a leitura de jornais ou mesmo de clássicos da literatura nacional. Tudo isso cativou Dona Mercedes e fez com que, logo depois de sua chegada a Peabiru, na década de 50, ela assumisse uma pequena turma na comunidade São Roque, permanecendo ali por dois anos.
Depois dessa primeira experiência em sala de aula, passou a lecionar na Escola de Aplicação Professor Nuno Souza e Silva – onde atualmente encontra-se a Escola Municipal Paulo Freire – auxiliando na regência do Pré-Escolar e também colaborando com as alunas da Escola Normal Colegial Olavo Bilac a realizarem ali suas aulas práticas. Foi um tempo importante que, segundo ela, ajudou-lhe muito se aprimorar na arte de educar.
Ao se lembrar da época em que atuou na Escola Estadual Emílio de Menezes, um sorriso. Vêm-lhe à memória ocasiões cômicas, como quando ela e a irmã, Dona Diolina, tiveram que apartar uma briga de mães na porta de sua classe; ou ainda quando se surpreendeu com a agilidade dos alunos, ao pedir-lhes uma simples frase e estes lhe entregarem prontamente uma verdadeira redação. “A gente às vezes subestima a capacidade das crianças...”, confessa, rindo copiosamente. Daquela época, cita algumas professoras, mas faz questão de elogiar eloqüentemente uma colega que, segundo ela, foi-lhe como uma autêntica mestra: Dona Rosa Delconte Ferreira, com quem aprendeu alguns truques sobre como favorecer a aprendizagem dos alunos.
Graças a essas dicas, ela pôde encarar, não sem esforço, uma turma com problemas de indisciplina na Escola Estadual 14 de Dezembro, que lhe serviu para aprender o que agora ela ensina com a serenidade de quem sabe o que fala: “Ser professora exige muito. Muito mesmo”. E, enquanto menciona saudosamente colegas daquele estabelecimento, subitamente pára de falar e olha para o nada, como quem lembra de algo relevante que ainda não mencionara... É a lembrança de ex-alunos que lhe vem à tona. Dona Mercedes fala orgulhosa que professores, médicos, políticos, advogados e outros profissionais bem-sucedidos já estiveram numa carteira escolar de uma de suas turmas. “Nossa profissão é muito importante, porque todas as outras dependem dela”, comenta.
Ela conta que, já aposentada, foi convidada pela professora Judith Simonelli a trabalhar na Escola São José. Ali, Dona Mercedes poderia realizar seu primeiro sonho: ser costureira. Ela aceitou. E, com talento inato, confeccionou becas, cortinas, fantasias e tudo mais quanto fosse necessário. “Fui muito bem acolhida por todos: professores, funcionários, padres, alunos... Encontrar os professores e conversar com eles na hora do café era como uma terapia para mim. Todos sempre me respeitavam e me tratavam com muito carinho. As crianças até me pediam a bênção”, suspira. Ela lembra que quando, por motivos de saúde, teve que sair da escola, onde permanecera por mais de uma década, ficou muito abatida. “Chorei por quase três meses. Não agüentava ficar longe da minha escola...” recorda, visivelmente emocionada.
Depois de um momento de pausa, outro sorriso. “Tenho que fazer o almoço”, lembra. E assim, ela encerra o bate-papo, prometendo voltar no dia seguinte para uma foto, usando o colar que ganhara da sobrinha. Na porta da biblioteca, onde acontecera a conversa, encontra-se com uma funcionária: um abraço demorado. Já na saída, um menino pede-lhe a bênção.
Falar sobre as idéias de Karl Marx e pretender confrontá-las com a doutrina de Cristo é ousar entrar num campo polêmico, controverso, mas, sempre atual e instigante. Antes, porém, de me atrever a isso, acho importante estabelecer distinções claras entre a sociedade civil – expressão duma estrutura político-organizacional humana –, da essência da Igreja, enquanto expressão maior ou mais manifesta do cristianismo, ou seja, dum credo religioso. Enquanto a sociedade, sujeita como é às ondas da evolução histórica e social, tende a transformar-se continuamente; a Igreja, tendo em vista sua própria missão, tende ao contrário a permanecer imutável no espaço temporal.
Trata-se dum contraste evidente: ao passo que sociedade civil se vê instigada a viver numa dimensão meramente terrena, contingente, ou seja, histórica; a instituição eclesiástica pode, além das aparências, aludir à dimensão estática do eterno. Eis a razão pela qual a Igreja atravessa os séculos vivendo uma realidade imutável, podendo opinar sobre as situações das sociedades atuais, mesmo não se nutrindo de fato dessas mesmas realidades.
Enquanto as sombras do milênio passado se distanciam cada vez mais, com seus medos, curiosidades e incertezas essências, o cristianismo [leia-se, sempre, a Igreja], se defronta com sério dilema: por um lado, adequar-se à mentalidade de uma época intrínseca de materialismos e realidades mundanas, pondo em segundo plano tudo aquilo que caracteriza o seu credo enquanto religião, quem sabe, para conquistar novos espaços, para imergir de modo mais sistemático no social e para tentar aproximar-se mais das pessoas, respondendo-lhes, mais que quaisquer outras, ânsias econômicas e demais problemas terrenos; por outro, continuar a manter seu próprio rosto, sua única e imprescindível vocação sobrenatural, com seus próprios princípios eternos.
Dada a natureza e as finalidades da religião cristã, parece súbito evidenciar que com a busca de excessivos [ainda que idealmente justos] compromissos terrenos e generosos que a Igreja assumiu por meio da sua Doutrina Social, arriscando, com a sua ação, de desfigurar o verdadeiro vulto da Igreja, ou seja, o de Cristo. O cristianismo, agrade ou não, é e permanece sendo uma fé. Segue-se, portanto, que, quem o aceita, o aceita por inteiro, e quem o rejeita, o rejeita completamente. Reflexo invertido, quem sabe, dessa época tecnológica em que tudo é possível e lícito, em que todas as coisas formam o direito, enquanto o dever [que é a base do direito] é encarado como um incômodo opcional.
Há décadas, muitos intelectuais marxistas, pós-marxistas e "catocomunistas" [como são chamados os católicos de esquerda na Itália] levantam uma hipótese, digamos, curiosa, mas igualmente infundada: se Jesus retornasse e decidisse se meter em assuntos políticos, se associaria ao credo igualitário marxista? Não são, de fato, os marxistas uma multidão de cristãos em busca de uma nova igreja mais humana e mais justa que satisfaça completamente as suas aspirações de eqüidade? Acaso não têm sido sempre os discípulos de Marx alvos das filas dos pobres [ou, empobrecidos, como queiram], reivindicando justiça e paridade, como fez o próprio Jesus Cristo? E mais: não seria tempo de a Igreja, que está comprometida há tempos com o poder [pelo menos desde que o imperador Constantino subiu ao trono], dê início a uma obra de purificação para reencontrar o caminho humilde do Evangelho?
Diante dessas interrogações, surge uma contra-pergunta: pode, na realidade, subsistir uma condição de conciliação real entre o cristianismo e o marxismo? Partindo de uma atenta e não polêmica análise racional, seria provável que não e com o aplauso inclusive dos católicos "históricos" que interpretam o Verbo feito carne numa ótica exclusivamente social e terrena, tentando, de certa forma, depurar sua real essência transcendental e meta-histórica.
Ainda que sem tentar, por motivos óbvios, expor todos os motivos dessa incompatibilidade, é possível dizer, pelo menos, que a rígida negação do conceito de "além", característica do credo marxista, anularia de cara com o principal pilar da fé e, quem sabe, incidir – lenta, mas, inexoravelmente – nos comportamentos intelectuais e prático do militante católico, sobretudo naquele empenhado com o social, distanciando-o do conceito de dogma e, portanto, de fé. Ainda que, como se verifica, a partir da derrubada do Muro de Berlin e do fim do sonho comunista, os neo-marxistas, órfãos duma igreja materialista extinta, passaram do lixo a priori do "ópio" da religião, para um movimento de assimilação do próprio credo cristão.
Alguém duvida que tanto "Cristo" quanto "Marx" estejam em plena crise de identidade?