quarta-feira, 18 de março de 2009

É hora de dar uma espiadinha!


O Big Brother cresceu. O Grande Irmão, personagem fictício do romance "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" ("Nineteen Eighty-Four"), concebido pelo britânico Eric Arthur Blair em 1948 e gerado pelo público brasileiro desde 2002, conseguiu entranhar-se no nosso imaginário, onde ganhou forma e morada, adaptando-se perfeitamente à nossa realidade tupiniquim, inculturando-se por aqui no tempo e no espaço. O cenário, portanto, não é mais a Oceania, e 1984 ficou para trás. Nestes tempos de New Age, não são mais as câmeras quem nos fiscalizam (embora elas estejam por aí, como redutores de velocidade ou inibidores de furto em estabelecimentos comerciais); na Era de Aquário, as sardinhas se aprisionam, por vontade, em aquários-casas de vidro e, lá de dentro, tentam agitar as águas ao redor, confirmando, assim, a ideia de Jean-Paul Sartre (cantada pelos Titãs) de que "o inferno são os outros". Ou seja, graças ao foco que se dá a qualquer indivíduo, graças aos holofotes projetando luzes ofuscantes sobre sua vida particular e mera, escancarada às espiadinhas do mundo, arreganhada aos olhares dos outros, "do inferno", à pauta incansável de programas (fúteis?) de fofoca, é que se cria uma novela superatrativa, mais interessante que Pantanal ou Caminho das Índias, escrita e encenada simultaneamente, com capítulos que duram o dia inteirinho!

E esse confinamento zoológico-humano dirigido nos reality shows mete-se de mansinho nos nossos relacionamentos sociais. É por causa dessa clausura assistida que acabamos tendo a impressão de que somos continuamente espiados, mesmo quando não exista alma viva por perto. Só que essa sensação não nos é incômoda: as câmeras imaginárias nos dão a possibilidade de nos tornarmos, qualquer um de nós, astros famosos, celebridades importantes.

Lembra-se de Gandhi, ou de Che Guevara, de Martin Luther King, de Madre Teresa ou ainda outros tantos que inspiraram as multidões? Pois bem, eles tinham características firmes, marcantes, e de tal modo definidas que os fazia únicos, arrebatadores: mais que de desejo, pontos de referência. Até bem pouco tempo atrás, sabíamos que o Milton era o Milton Nascimento, um cantor excepcional, compositor único e que, por isso, devia ser devidamente prestigiado, valorizado. Agora o tom é outro: a revolução da informação e da tecnologia fez com que aquelas personalidades, semideuses, fossem derrubadas à baixeza da simplicidade de pessoas anonimamente comuns, retirando daqueles o privilégio da intocabilidade e dando a estes a chance do estrelato, de serem alvos da idolatria. Vem daí a explosão de livros biográficos: hoje é possível saber detalhes íntimos tanto da vida de Bruna Surfistinha, quanto de Edir Macedo (numa das biografias mais lidas no país no ano passado!); daí também a popularidade dos blogs (espaço virtual onde muitos de seus autores fazem questão de divulgar desde o que comeram no almoço, aos motivos do término do namoro na última balada).

Elis que me desculpe, mas nossos ídolos já não são os mesmos: agora os deuses são mortais, e os mortais sobem à honra dos altares. Tornam-se ídolos, já não mais pelo que fazem, mas pelo jeito como se comportam: de 12 brothers, elege-se apenas aquele cujo estereótipo mais agrada ao grande público. O que eles fazem não vale nada. O que importa é como eles vivem na "nave-mãe": sua maneira de comer, falar, beber, beijar, tomar banho, dançar, brigar e peidar.

Enquanto isso, nós também nos confinamos. Continuamos sendo espiados por uma câmera interna, assistida por um expectador imaginário, externo. De vez em quando, tememos que ele nos mande para o paredão, ou que, na pior das hipóteses, nos elimine.

Não é estranho? Porque, no fundo, o Big Brother é um Big Self. E, caso assinasse o pay-per-view, Sartre atualizaria sua afirmação: "o inferno somos nós mesmos". Não sei se o Milton Nascimento assiste ao BBB, mas deve estar cantando com entusiasmado "Eu, Caçador de Mim".

Milton Nascimento - Caçador de Mim


3 comentários:

Grabael disse...

Genial! hahahahaha
Bial ficaria super mal em comparar Big Brother com TV FAMA, mas, você tem toda a razão!
O TV FAMA, assim como a vizinha fofoqueira, faz o sucesso (?!) do Big Brother ajudando a 'população Tupiniquim' a ser assim("assim" está ocupando o lugar de um adjetivo que ainda não conheço. Mas, ligando a TV no Domingo, logo se entende).
Ótimo blog!
;D

Rubens Prizio disse...

Prêmio merecido , parabéns !!!!!!!
http://minhasartesrubensparizio.blogspot.com/

Débora disse...

Prêmio merecido MESMO!Parabéns profee \o/ se eu fosse uma influente global, eu te contrataria ;) beijo.