
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
sábado, 22 de agosto de 2009
Professor da Fecilcam receberá prêmio
quinta-feira, 23 de julho de 2009
XII Prêmio Cidadão de Poesia
Saiu o resultado do XII Prêmio Cidadão de Poesia, um certame literário que tem por objetivo revelar os novos talentos da lírica em língua portuguesa. Acabei ficando com a 2ª colocação: algo que realmente me deixa satisfeito.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Letras da Primavera

No meu discurso, enviado por e-mail aos organizadores do certame, dediquei o prêmio ao poeta anadiense Manuel Alves, um repentista analfabeto, morto no começo do século passado. Sua poesia foi compilada por Tomás da Fonseca. Em Anadia, em homenagem ao poeta, foram dedicados uma rua e um monumento. É dele o poema que segue:
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Germinando

terça-feira, 7 de julho de 2009
Ciao, bella Italia!
A cerimônia de premiação aconteceu no majestoso palácio do governo e foi presidida pela presidente da 3ª Circunscrição, Mariangela De Carlo, contando com a presença de autoridades locais e regionais, da imprensa e de convidados. Recebi o troféu das mãos do prefeito da cidade, que disse ser importantíssimo receber um prêmio literário dessa magnitude, e mais ainda quando não se é falante nativo da língua, como é o meu caso.
Transcrevo, na sequência, o meu discurso, proferido originalmente em italiano:
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“Enquanto saúdo os presentes, desejo expressar minha enorme alegria por estar aqui emLecce, recebendo a premiação desse importantíssimo concurso artístico, o Prêmio Primaverart, que reuniu, como os senhores sabem, obras de diversos artistas, não somente italianos.
Para mim, que sou brasileiro de origem e de coração, mas também amante da língua dantesca, este prêmio tem um significado muito especial: conforme os senhores mesmos aludiram enfaticamente, sou o primeiro poeta estrangeiro a vencer um concurso literário na Itália com líricas em italiano. Para mim, além disso, é quase inacreditável que minha poesia, que canta geralmente as coisas simples da vida cotidiana, seja reconhecida aqui na Itália, em Lecce, Cidade da Arte.
Permaneci aqui esta semana e pude ver, em cada giro no imponente e belíssimo centro histórico, que o amor pela arte é sem dúvidas uma das principais características dessa cultura há milhares de anos. Portanto, ser premiado nesta terra de cultura milenar causa-me uma sensação inexplicável.
Não posso, portanto, deixar de agradecer a Deus, a minha família, aos colegas, amigos, alunos e leitores. Um agradecimento de coração à Srª Mariangela De Carlo, presidente da 3ª Circunscrição de Lecce, pelo apoio e pela atenção durante minha estada na Puglia.

Assim diz Camilo Castelo Branco, grande nome da literatura portuguesa: ‘A poesia não tem presente: ou é esperança, ou é saudade’. Assim, espero verdadeiramente que a poesia estimulada pelos senhores possa recordar sempre ao povo leccese o seu glorioso passado, com nostalgia, com ‘saudade’, e o leve a escrever, em belos versos, o próprio futuro.
Muito obrigado a Lecce, terra que levarei comigo dentro do coração com muitas saudades.”
Após a cerimônia, segui para a Universidade de Salento, para uma conversa com os alunos de Letras sobre Literatura Brasiliera e sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Certamente, foi um dos momentos mais importantes e emocionantes da minha vida. Espero que essas premiações motivem a tantos outros, peabirutas ou não, para que também sintam essa ânsia de escrever, de produzir.
Rabiscar, para mim, é uma necessidade, quase física.
Eu vou continuar escrevendo. Conituem lendo meus rabiscos, por favor!
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Um prêmio português, ora pois!
sábado, 25 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Ainda da série "Meus Versos na Europa"
Nem bem me recuperei do susto de receber dois prêmios importantes na Itália, numa mesma semana, fiquei sabendo agora que também fui selecionado para integrar a Antologia "Parole e Poesia" da Casa Editora Il Fiorino, da cidade de Módena (região da Emília-Romanha).
sexta-feira, 10 de abril de 2009
1º lugar na Itália!!


domingo, 5 de abril de 2009
Fui premiado no Lácio!

sexta-feira, 27 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
Embalagem

quinta-feira, 19 de março de 2009
O bom poeta não lê poesias
quarta-feira, 18 de março de 2009
É hora de dar uma espiadinha!
O Big Brother cresceu. O Grande Irmão, personagem fictício do romance "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" ("Nineteen Eighty-Four"), concebido pelo britânico Eric Arthur Blair em 1948 e gerado pelo público brasileiro desde 2002, conseguiu entranhar-se no nosso imaginário, onde ganhou forma e morada, adaptando-se perfeitamente à nossa realidade tupiniquim, inculturando-se por aqui no tempo e no espaço. O cenário, portanto, não é mais a Oceania, e 1984 ficou para trás. Nestes tempos de New Age, não são mais as câmeras quem nos fiscalizam (embora elas estejam por aí, como redutores de velocidade ou inibidores de furto em estabelecimentos comerciais); na Era de Aquário, as sardinhas se aprisionam, por vontade, em aquários-casas de vidro e, lá de dentro, tentam agitar as águas ao redor, confirmando, assim, a ideia de Jean-Paul Sartre (cantada pelos Titãs) de que "o inferno são os outros". Ou seja, graças ao foco que se dá a qualquer indivíduo, graças aos holofotes projetando luzes ofuscantes sobre sua vida particular e mera, escancarada às espiadinhas do mundo, arreganhada aos olhares dos outros, "do inferno", à pauta incansável de programas (fúteis?) de fofoca, é que se cria uma novela superatrativa, mais interessante que Pantanal ou Caminho das Índias, escrita e encenada simultaneamente, com capítulos que duram o dia inteirinho!

Milton Nascimento - Caçador de Mim
sábado, 7 de março de 2009
O leiteiro
Revirando a esmo papéis amarelados [não sei porque faço isso de vez em quando], encontrei, ainda incompleto, um conto que comecei a escrever no ano 2000. Nem me lembrava mais dele. Decidi re-escrevê-lo [com hífen mesmo, já que, agora, separa-se o prefixo do segundo termo quando vogais iguais se encontram].
A trama é minha. Mas o cenário, escuro e empolgante, roubei de um poema fantástico do Drummond. Assim, enquanto a prosa não fica definitivamente pronta, posto o tal poema, que é o meu preferido.
A morte do leiteiro
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

segunda-feira, 2 de março de 2009
Mais um!
Fiquei com a 3ª colocação no 27º Concurso Internacional Literário das Edições A.G., cujo resultado foi divulgado na tarde de ontem. Nas primeiras colocações, estão poetisas portuguesas. Esta será minha segunda participação em antologias este ano. Tomara que não sejam as únicas!
O poema premiado, Bússola, está nas postagens abaixo.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Mosaico
Anoiteceu
Ao claror tíbio dessa lua
escondida, semibreu
teu gelo mudou-me
de mar em gotas
de piso em tacos
de trilha em trechos
de obra em cacos
Teu inverno me pariu penhascos
precipícios cinzentos
ruínas e escórias
que engolem minhas peças
devorando-me as memórias
Tua noite abriu em mim buracos negros
que apagam meu senso traído
fragmentos de saudades
que jamais terei sentido
Fico incompleto
E embora fracionado
reduzido, inacabado
hei de manter o teu afeto
entre os retalhos do meu peito
até que o teu fulgor não cesse
ao meu coração tão imperfeito
Mas amanhece
Manhã moça de verão:
É hora de recolher meus pedaços pelo chão.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Uma vela e outro prêmio
Recebi meu segundo prêmio literário. O primeiro foi há quatro meses, oferecido pelo Projeto Poesia Pública, de Belo Horizonte. Agora foi a vez do poema "Parafina", sobre a volubilidade da fé, ser contemplado com a primeira colocação entre as poesias religiosas do IV Concurso Internacional de Poesia Latino-Americana, promivido pelo Projeto "Poemía" de Las Piedras, no Uruguai, que reuniu poetas de várias partes do continente.
Eis o poema e, logo após, a relação dos poetas premiados:
Parafina
De vez em quando
minha fé resmunga
reclamando
Inconstância súbita
me questiona
me põe em dúvida
me indaga
Mas meu pavio
não se apaga
segue aceso
e embora ileso
em chaga
IV Concurso Internacional de Poesía Latinoamericana Projecto Poemía (Las Piedras - Canelones)
RESULTADO
Con el objetivo de impulsar un género tan importante como es la poesía y, al mismo tiempo, dejar constancia de la literatura que se escribe ahora, al margen o bebiendo de tendencias, gustos y estilos de todas las partes de nuestro grandioso continente, hemos convocado el IV Premio Internacional de Poesía Latinoamericana.
Aquí están los vencedores:
Categoría “Amor a la patria”
Categoría “Espiritualidad”
Categoría “Paz”
Categoría “Lucha”
Con los poemas ganadores se hará una publicación en libro con el título de "La Nova Poesía de Latinoamérica", que incluirá los premiados y algunos de los textos seleccionados entre todos los participantes, orden alfabético por el nombre del autor. Es motivo de inmensa alegría poder darle las gracias a los vencedores e a todos los participantes.
Dedico esse prêmio aos meus leitores e a todos que não deixam a vela se apagar!
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Juventude inquieta
Tenho medo de poucas coisas. Mas, a que mais me incomoda é a ameaça da velhice. Não pela idade em si, já que ainda nem cheguei à casa dos 30, nem pelo alvorecer dos primeiros fios brancos ou das entradas no cabelo, mas pela possibilidade de perder, com "a casca inútil das horas", a minha inquietude interior. Não quero perder aquilo que mais admiro na juventude: a inquietação. E fico incomodado comigo mesmo quando, em flashes no pensamento, me pego conformado com coisas que antes me aborreciam.A juventude é inquieta. E é somente a inquietação da juventude que nasce aquilo que é belo, que é bom; e nunca dos que deixaram-se embolorar pelo mofo da comodidade, do conformismo. Só os jovens podem mudar o mundo. Mas apenas os jovens que sabem nutrir e direcionar a própria inquietude, que sabem olhar para frente com coragem, que lutam com entusiasmo pelo ideal que mantêm vivo por dentro.
Deus permita que daqui uns tempos eu possa olhar para uma foto minha destes dias e dizer-me, sem peso na consciência, que mantive viva a inquietação: essência da juventude.
Na mocidade, na estação fogosa,
ama-se a vida. A mocidade é crença,
e a alma virgem nesta festa imensa
canta, palpita, se exalta e goza.
[Casimiro de Abreu]
domingo, 28 de dezembro de 2008
Bússola
Vento vagante em meu peito imerso
soprando palavras sem rumo nem rima
num mar de poemas ainda disformes
decerto deserto de versos diversos,
Lúcidos.
Decerto bússola de agulhas incertas
Disturbando o nauta que, embora poeta,
explora inseguro seus versos-dilemas,
prendendo palavras que estavam libertas,
e livrando os sentidos de suas algemas
Ácidas.
Sopra, brisa pungente, minha vela reclusa!
E move esta nave donzela a epopéias bravias
para as águas gestantes de vãs poesias,
para os mares sedentos desta proa intrusa,
Límpidos.
Cruza percursos remotos privados de mapa
e brevemente (que és só fôlego e mocidade)
leva meu poema a mergulhar na saudade,
mas batiza-o somente na palavra que me escapa
Líquida.
Depois traze-o certeiro a esta mesma embarcação,
pois se a rosa-dos-rumos converteu-se na dos ventos,
um sopro que me venha há de mudar-se em alento
e transbordar de poesia o navegante coração
Ínfimo.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Cafezal
Um cheiro vivo cafeeiro pela estrada
Entrando sacro pelo vidro do meu carro
Entrando intruso, meio que tirando sarro
Trazendo à tona aromas doutra temporada
Fragrância alheia aos que habitam as cidades,
Porém perfume a quem do mato se enamora.
Canção da terra incensando a santa aurora,
Louvor-viola arando o peito de saudades...
Reduzo a marcha, estaciono um momento.
Até me vejo bem piá sobre um cavalo,
voando altivo pelo campo tal qual vento.
E ainda escuto a voz materna assim chamá-lo:
— Vorta depressa, pelo Santo Sacramento!
Bendito o cheiro da infância que eu inalo!
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Pietà
sábado, 1 de novembro de 2008
Côncavo
Tem quem viva mesmo morto
Há porém quem venha lúgubre
Tem quem ande mesmo torto
Há também quem cresça ínfimo
Pois se há quem vença sem conforto
Também tem quem nasça póstumo
E embora encontrem mesmo porto
quase não há quem mude o hábito
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Uma xícara premiada
Estou feliz. Comecei a escrever há pouco menos de quatro meses e estou colhendo agora os primeiros frutos. O poema "Xícara", simples e breve como um cafezinho, ficou em 1º lugar no Concurso Nacional de Poesia Caleidoscópio 2008, concorrendo com quase 200 outras poesias válidas inscritas.

1º Lugar - Poesia: Xícara
Membros da comissão de avaliação
Profª Ms. Solange Moreira
Professora Universitária e Crítica Literária
Rosangela Dias Motta
Poetisa e Comunicadora Social
Davi Mourão Motta Drummond
Poeta e Diretor do Projeto Poesia Pública
Um cafezinho pra comemorar!
sábado, 25 de outubro de 2008
A Revolta dos Fantoches
Negligência sangüenta
noutro mundo paralelo,
um fio se arrebenta
E me rebelo
Um cenário bonito
espetáculo desonesto.
Mesmo aplaudido,
Protesto
Ainda amarrado, suspenso,
ao menos por dentro me solto
ao menos assim me pertenço
Me revolto
O manipulador manipula dores
em movimento modesto
E sem muitos rumores
Contesto
Mas até quem comanda
volta e meia cai no sono
E o nó então se abranda
E revoluciono
A pena porém de quem se mete
a desmerecer tal "obséquio"
é voltar pó ao baú das marionetes
é voltar só à mesma caixa de presépio

quinta-feira, 16 de outubro de 2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Tempos Birutas
Ontem, enquanto apagava uns malditos spams na minha caixa de entrada, vi que tinha recebido um e-mail do Arleto Rocha – grande poeta peabiruense – falando sobre meu blog. Depois da devida permissão, publico o seu texto, honrado e agradecido. Ei-lo:
Nessas bobeiras que a gente tem de ficar fazendo nada a frente de uma Internet que supostamente nos propicia fazer tudo (que embuste), ao Google na procura do não sei o que:
- “Peabiru”
Vinte e tantas paginas. Fiquei na primeira.
Acrescentar outra palavra, sair da rotina.
Na digitação de dois dedos (Professor Expedito que não veja isso nas aulas de datilografia) um sufixo involuntário:
- “Peabiruta”.
Primeira página. Nada.
Segunda: teu blog.
Muito legal a estética, longe da formalidade dos que vejo por aí. Nota 9,9. (Explico: pois como disse uma professora da faculdade “10 só para Deus”. Enchi a prova dela com citações bíblicas relacionadas com a disciplina agrária de seu magistério. Deu-me 10, às escondidas, chamou-me de anjo e pediu para nunca mais eu fazer isso: ciência e religião, um perigo). Às escondidas, 10 pelo teu blog.
Chamou-me a atenção sua crônica “Anel de Tucum”. Leitura fluente. Eu que dialogo com os cães (os meus e os da rua) e samambaias vi-me dirigindo o neo-realismo da cena. O Cão e o cara sob a noite.
Predestina-me também este teu talento de ouvir estranhos. Outro dia, sentado ao balcão de um boteco da rodoviária de Curitiba, esperando o ônibus as 13, sendo ainda 10, o sujeito me disse:
-Bebendo cerveja nesse frio!
Olhei, o cara sorriu, o outro, junto, em silêncio. Ventríloquo, falava por ele e por todos. Desandou a dizer que a mulher do amigo, esse aí em silêncio, tinha o largado, e agora voltava para uma reconciliação, lá em Faxinal, depois de Ortigueira, antes de Apucarana.
Da primeira até a segunda cerveja, a historia do amigo, na terceira a dele, até pedir minha opinião:
-Será que ela o aceita de volta?
O ônibus era as 11. Foi. Feliz por eu dizer que sim. Pagou-me as três cervejas, mesmo dizendo que a prefeitura de minha cidade arcaria com as Kaisers bebidas.
Pela porta, bolsa nas costas, o falante para o amigo feliz e sempre quieto:
-Num disse que você vai ter ela de volta.
Na cidade da Lapa, em um evento de premiação literária, tarde da noite no vento sulista descobri que não existia hotel aberto àquela hora. Minha bagagem dormindo no guarda volume da rodoviária fechada e eu pelo lado de fora com dez exemplares da antologia publicada. Deitei-me no banco de madeira dos taxistas:
-Vende livro?
Para evitar dizer que eu escrevia (um crime nesses dias de espíritos embrutecidos) disse que sim:
-Sim.
Encolhi os pés, ainda com a cabeça nos livros, feitos travesseiros. Depois me levantei de vez. Outro taxista sentou-se ao lado.
A vida inteira dos dois, uma tia-avó em Nova Cantu e a escalação completa do Coritiba e do Atlético.
-Torce pro Coxa ou pro Atlético?
-Grêmio de Maringá.
-Esses livros que vende é de quê?
-Poesia.
-Leia uma.
Escolhi a minha, e li sem dizer que era minha. Fizeram cara de desaprovação e de quem não entendeu nada. Voltaram a Tia-avó em Nova Cantu e ao futebol curitibano.
Café, pão e os livros.
Conversas estranhas com conhecidos também não é novidade, talvez, como você disse, por essa nossa vocação de ouvidos mais que boca:
-Faço tudo e nada está bem, num dá mais pra continuar assim, o jeito é terminar mesmo...Nunca, nunca mais quero vê-la.
Dois dias depois, juntos.
Mas essa coisa alem do entendimento pode ser fruto dos dias. Culpa nossa, pois pela tecnologia conversamos com gente que nunca conhecemos, pelos orkuts e MSNs da vida, sem falar no celular que virou extensão da mão humana, um órgão do corpo, muito embora crio um espanto a todos quando digo que não tenho e não gosto. Um apêndice sem função para mim.
Teclando o Google, para bisbilhotar todos e ninguém.
Tempos birutas.
Peabiruta.
[Arleto Rocha]








